quinta-feira, 26 de agosto de 2010


Razão e instinto


O prazer de viver e o fatalismo da existência iluminam a obra original do pensador alemão que marcou o século 20

texto José Francisco Botelho / Adaptado por Charles Rogers

Eternamente insatisfeito, eternamente incompreendido e provocador até o último fio do bigode, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) foi o maior enfant terrible da filosofia ocidental nos últimos dois séculos. Exemplo perfeito do pensador que realmente diz o que pensa sem máscaras nem firulas – uma virtude que hoje anda fora de moda –, ele cortejou o escândalo, brincou com a loucura e, por causa de sua teimosia, amargou uma vida solitária e infeliz. Sua recompensa é o fascínio perturbador que continua exercendo sobre gerações de inquietos leitores mais de 100 anos após sua morte: pode-se discordar de suas opiniões, mas é impossível não se enredar em sua prosa temperamental e vertiginosa. Escritor, poeta, músico e crítico da cultura, Nietzsche foi acima de tudo um pensador hiperbólico – em suas paixões, em seus rancores, em sua lucidez e em seu delírio.

A posteridade o recorda principalmente por suas obsessivas diatribes contra a moral cristã – é de sua lavra aquele mantra religiosamente repetido pelo ateísmo moderno: “Deus morreu”. A sanha antimoralista de Nietzsche domina seus últimos escritos, recheados de grandiloquência e amargura; a leitura de suas obras de juventude, contudo, mostra que ele foi muito mais que um profeta do niilismo e arauto da morte divina. A força original de seu pensamento é a revolta contra os exageros do racionalismo – sua controversa façanha foi atacar frontalmente a ideia de que a razão humana, por meio da lógica e do bom senso, possa estabelecer verdades absolutas e compreender até as profundezas mais obscuras do próprio homem. Contra esse fundamentalismo do intelecto, Nietzsche propôs a madura aceitação do que exista de irracional no universo e em nós mesmos – helenista eufórico, ele se inspirou na terrível sabedoria das tragédias gregas para elaborar sua mistura de pessimismo e afirmação da vida. Em vez do rigor religioso ou da fé científica, ele apregoou a liturgia do fenômeno estético, espécie de misticismo sem Deus, que vê na arte a única redenção possível para o ser humano – essa criatura estranha e fantástica que Nietzsche comparou, em uma de suas passagens famosas, a “uma corda atada sobre um abismo”.

Nietzsche

Influente como poucos, o pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900) iria não apenas marcar a história da filosofia mas também a estética e a política de nossa era.

Anticristo?

Ironicamente, o autoproclamado Anticristo da filosofia veio ao mundo em uma família de tradição religiosa. Era filho, neto e sobrinho de pastores protestantes – e ele próprio cogitou seguir essa carreira. Ainda criança, testemunhou a morte precoce do pai: vitimado por uma obscura doença nervosa, Karl Ludwig Nietzsche perdeu a lucidez e a vida aos 34 anos de idade. A moléstia foi misteriosamente diagnosticada como “amolecimento do cérebro”. O pequeno Nietzsche se convenceu de que aquele era um mal hereditário, vendo na morte do pai um augúrio de seu próprio destino.

Por volta dos 15 anos, o filho do pastor trocou os salmos religiosos pelos clássicos gregos. Alardeando sua perda de fé, brigou com a família, tornou-se um erudito precoce e, com apenas 24 anos, virou professor de língua e literatura grega na Universidade de Basileia. Em 1870, foi convocado pelo exército, servindo como assistente médico no campo de batalha, durante a Guerra Franco-Prussiana (experiência que arruinou a saúde do jovem gênio livresco). Enquanto cuidava de feridos, sob o estrondo dos canhões, ele começou a escrever sua primeira obra-prima: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Publicado em 1872, o livro é um fascinante mergulho no espírito da antiga civilização grega, escrito numa prosa deliciosamente estranha, em que a reflexão filosófica flerta descaradamente com a poesia.

Para Nietzsche, as principais tragédias gregas – escritas por autores como Ésquilo e Sófocles no século 5 a.C. – contêm uma imagem profética da condição humana. Os heróis trágicos, como Édipo, Antígona e Prometeu, são levados à desgraça e à destruição por suas próprias virtudes. Contudo, em uma tragédia que se preze, a catástrofe não leva ao desespero total, mas a um misterioso consolo metafísico. A essência do mundo trágico está na capacidade de sorrir enquanto se mergulha no coração das trevas, e é isso que Nietzsche tenta resgatar, como antídoto para as mazelas e fraquezas de sua própria época: somos todos personagens de uma grande tragédia cósmica, e devemos viver de acordo com nossos papéis, sem recair no escapismo ou na lamúria. A chave da sabedoria está em aceitar o lado selvagem e transitório da vida – o que não significa renunciar a ela. Esse perigoso equilíbrio entre o prazer de viver e o fatalismo existencial é regido, na filosofia de Nietzsche, por duas figuras ao mesmo tempo opostas e complementares: os deuses Apolo e Dionísio, enfezados irmãos olímpicos, que entre socos e abraços regulam o estado de espírito da humanidade.

Na obra de Nietzsche, o apolíneo e o dionisíaco são dois impulsos ou visões de mundo que, ao longo dos séculos, se digladiam e se completam, determinando a postura humana diante da vida em diferentes épocas e lugares – e é na produção artística que esses polos se manifestam de forma mais clara. Na mitologia grega, Apolo é o deus da harmonia, da ordem, do comedimento, da civilização. Para Nietzsche, essa divindade altiva, serena e jovial representa a autoconfiança do ser humano e o desejo de conhecer e transformar humanamente o mundo. Sob a inspiração de Apolo, os homens tentam domar o caos do universo com a força da imaginação. O espírito apolíneo é o que separa o ser humano da natureza anárquica, e o leva a criar seu próprio mundo de ordem e beleza, recalcando o lado sombrio da existência. Escreve o poetafilósofo: “Se pudéssemos imaginar uma encarnação da dissonância – e que outra coisa é o homem? –, tal dissonância precisaria, a fim de poder viver, de uma ilusão magnífica que cobrisse com um véu de beleza sua própria essência. Eis o verdadeiro desígnio artístico de Apolo: sob seu nome reunimos todas aquelas inumeráveis ilusões da bela aparência que, de algum modo, tornam a existência digna de ser vivida”. O apolíneo leva o homem a desafiar o cosmos desumano e a criar a mais doce das ilusões – a vida em civilização. O melhor exemplo desse impulso são as artes visuais da Grécia antiga, com seu amor pelas proporções justas e

por sentimentos bem dosados.

De tempos em tempos, contudo, o límpido reino de Apolo é invadido por seu irmão escandaloso e mal comportado. Deus da embriaguez, do êxtase e das emoções descontroladas, Dionísio é o símbolo da desmedida, do reencontro com a pulsão caótica da natureza. Pintores e escultores o representam com um sorriso ora maligno, ora sensual, e uma infalível taça de vinho nas mãos; nos tempos antigos, seus adoradores costumavam entregar-se a épicas bebedeiras e loucas orgias à luz do luar. Se o apolíneo tenta imortalizar as aparências criadas pelo homem, o dionisíaco quer rasgar o véu das ilusões e colocar-nos em contato com o verdadeiro fundamento da vida – o eterno ciclo de destruição e recriação do universo, regido por forças incompreensíveis, além do nosso entendimento. Dionísio traz a intuição de que todas as regras humanas, como a moralidade, são convenções (úteis ou não), abrindo-nos um espaço que está “além do bem e do mal” – expressão que dá título a outra obra famosa de Nietzsche. Mistura de terror e êxtase, em que a mente brinca com sua própria aniquilação, o dionisíaco dissolve a fronteira entre os indivíduos, o limite entre a cultura e a natureza, criando a experiência mística da unidade primordial. O homem vê seu próprio limite e é desafiado a intuir o que está além do humano. “Também a arte dionisíaca quer convencer-nos do eterno prazer da existência: só que não devemos procurar esse prazer nas aparências, mas por trás delas”, escreve o autor em O Nascimento da Tragédia. “Cumpre-nos reconhecer que tudo quanto nasce está condenado a um doloroso ocaso; somos forçados a adentrar nosso olhar nos horrores da existência individual – e não devemos, todavia, estarrecer-nos... Nós mesmos somos, por breves instantes, o ser primordial, e sentimos seu indomável prazer de existir.” A expressão máxima do dionisíaco é a música: arte sem formas, composta por emoções puras e desencarnadas. Na tragédia grega – que celebrava ao mesmo tempo a individualidade humana e o poder da fatalidade cósmica –, as forças dos dois irmãos olímpicos se contrabalançaram perfeitamente. Um belo e rápido equilíbrio, que existiu por um instante na história e depois desapareceu para não mais voltar.

Perigos do intelecto

O “homem trágico”, modelo de conduta para Nietzsche, é aquele que conhece os limites do entendimento humano e, contudo, não perde a libido pela vida. Mantém os olhos alegremente fixos no abismo, oscilando entre a embriaguez e a forma. Para Nietzsche, essa difícil simetria foi rompida pelo triunfo do racionalismo, que ocorreu com a filosofia de Sócrates e Platão no século 4 a.C. Com eles, nasceu uma degeneração do apolíneo: o “homem teórico” que rechaça a sabedoria dionisíaca e só aprecia aquilo que pode compreender. Renunciando ao mistério, ele põe suas supostas verdades acima dos prazeres indecifráveis da arte e da vida. Basta uma rápida reflexão sobre nosso próprio tempo para constatarmos que a tirania do homem teórico continua a atravancar nosso caminho. Ao longo do último século, quantas teorias – vindas das mais diversas áreas – tentaram convencernos de que não temos o direito de desfrutar o simples prazer de um bom livro ou de uma boa pintura? Quantos intelectos rigorosos tentaram reduzir nosso gozo estético a alguns mecanismos sociais mais ou menos suspeitos e aburguesados? Perguntas retóricas, naturalmente, pois seria impossível contabilizar essa trupe de hermeneutas tediosos cujo nome é legião.

Após O Nascimento da Tragédia, Nietzsche continuou sua cruzada contra a tirania racionalista em obras cada vez mais ácidas e mordazes, enfiando seu dedo petulante nas feridas da civilização e recusando-lhe qualquer anestésico. Sua verve explosiva acabou lhe arruinando a carreira acadêmica e afastou- o dos amigos. Sua saúde, que sempre fora frágil, deteriorou-se precocemente: atormentado por moléstias como a difteria e a sífilis, Nietzsche começou a perder a voz e a visão, deixando a vida universitária aos 34 anos. Irritado com o crescente nacionalismo germânico, renunciou à cidadania alemã e passou a viver como um pensador nômade, sem Deus e sem pátria – morando em estalagens baratas ao redor da Europa e escrevendo livros atrás de livros em meio a dores de cabeça dilacerantes, cólicas e crises de vômito. Essa descida aos infernos completou- se aos 45 anos, quando a sombra da loucura, que sempre o havia rondado, atingiu- o de forma devastadora. Certo dia, andando pelas ruas de Turim, o filósofo avistou um cocheiro que fustigava cruelmente sua montaria. Aos gritos, Nietzsche se abraçou ao pescoço do cavalo, tentando protegêlo do chicote. Depois caiu no chão, desmaiado. Havia perdido a razão, e nunca mais a recobraria – até hoje não se sabe se o colapso foi causado pela sífilis, pela genética ou por motivos mais obscuros. Nietzsche morreu em Weimar, pobre e louco, em 1900.

Cem anos após o ato final dessa tragédia, a obra de seu anti-herói desgrenhado e apátrida continua fonte inesgotável de perturbação e inspiração. Loucamente lúcido, ele continua a lançar-nos seu desafio: conseguiremos aceitar o estranho, o obscuro e o caótico em nós mesmos, sem cair no precipício? O próprio Nietzsche tropeçou em sua busca do ideal trágico: embora pregasse o equilíbrio entre Apolo e Dionísio, acabou resvalando para o lado da desmedida – prova disso é o hermetismo e a megalomania de alguns de seus últimos escritos. Mas, apesar das polêmicas sempre vivas, nem os detratores mais enfurecidos negaram a Nietzsche sua primeira e derradeira virtude: ele foi um grande escritor e expressou como poucos a fragilidade heroica do homem em um mundo nem sempre acolhedor e raramente compreensível.

Para saber mais:

O Nascimento da Tragédia, Friedrich Nietzsche, Companhia de Bolso

Nietzsche, Jean Granier, L&PM Pocket


O que a aprovação do casamento gay tem a ver com o mundo corporativo?


Mudanças na legislação refletem transformações de valores nas sociedades

Adaptação Prof. Charles Rogers

Recentemente, a Argentina legalizou o casamento entre cidadãos do mesmo sexo, e passou a integrar o pequeno grupo de países (como Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica e Canadá) que têm a garantia expressa em suas constituições. Como já era de se esperar, a decisão não passou imune a críticas. Mas não há dúvidas de que a medida – aceita pela maioria da população dos lugares onde foi aprovada, na prática, tem representado mais que uma simples mudança na legislação. O reconhecimento legal à união entre homossexuais reflete a lenta construção de novos valores que, aos poucos, as sociedades estão aprendendo a cultivar.

O casamento gay ainda é um tabu, assim como várias outras questões foram ou continuam a ser. Mas, assim como o fim da segregação racial, por exemplo – que não eliminou, de vez, a discriminação do negro, o reconhecimento legal da diversidade demarca a transição entre dois momentos distintos, e vem eliminar barreiras que ainda resistem em diversos setores, inclusive, no mundo corporativo.

"Ainda caminhamos a passos lentos nesse sentido, mas em algumas empresas encontramos programas específicos que visam promover a diversidade. As grandes, sobretudo, tentam aumentar a participação feminina em seus quadros e evitar tanto a discriminação racial quanto em relação à orientação sexual dos profissionais", afirma Julio Sergio Cardozo, livre-docente da UERJ e consultor de empresas.

Para Cardozo, as companhias que conseguem enxergar a diversidade em suas equipes com respeito conseguem melhores resultados. De acordo com o consultor, diante do preconceito as "pessoas se ofendem, ficam desmotivados e produzem menos, porque querem ser reconhecidas e respeitadas por suas habilidades e não por sua orientação sexual".

Cardozo ressalta ainda que a discriminação "afeta a capacidade da empresa recrutar talentos, que, não necessariamente, são todos heterossexuais". Para o consultor, "o mais importante é ter pessoas com perfis e habilidades diferentes, que se completam. Não importa o sexo, nem a cor".

Preconceituoso, eu?

"O grande problema que ainda vejo é o preconceito velado que existe entre as pessoas", afirma Julio Sergio Cardozo. Segundo o consultor, ainda é comum, mesmo aquelas pessoas que dizem não praticar nenhum tipo discriminação, agirem de maneira desrespeitosa. "Quando há brincadeiras ou piadinhas de mau gosto é uma demonstração clara de que existe preconceito", afirma Cardozo.

Diversidade cultural

Em um mundo cada vez mais interligado, outro aspecto fundamental a ser observado dentro das empresas é o respeito às diferentes culturas. No entanto, segundo Cardozo, são poucas ainda as que estão atentas à questão. "Muitas, não se preocupam com a diversidade cultural. Uma pesquisa da Ernst & Young feita com 520 executivos de empresas globais revelou que apenas 5% de seus líderes atuam fora do país-sede. Se os executivos estivessem espalhados por diferentes pontos do mundo, teriam experiências distintas para compartilhar", afirma o consultor.

E você, o que acha: O respeito à diversidade é importante para as empresas?

Obs.: Faça seu texto e entregue no dia da prova (apresentação da tese oral)

Em análise parto do pressuposto que no Cap. XIV - Da condição natural da humanidade relativamente à sua felicidade e miséria. In: O LEVIATÃ – Thomas Hobbes

Segundo Hobbes, em estado de natureza todos os homens são iguais. Pois, qualquer homem, utilizando de astúcias pode matar outro mais forte que ele. Diz o filósofo que, no estado de natureza ninguém tem garantia de nada. Nem de sua própria vida. Para evitar a insegurança o homem deve antecipá-lo por meio de um contrato admitido por todos o qual, reunirá o máximo de força e poder. Segundo Hobbes, no estado de natureza o homem é individualista e arrogante. O pacto de formação do Estado é que mantém o respeito de uns para com os outros. Antes da formação do Estado – no estado de natureza -, os homens viviam em “guerra de todos contra todos”. Antes da formação do Estado não existia a possibilidade de nenhum progresso. Os homens viviam em condições deploráveis. Hobbes lembra ainda que, a experiência do dia-a-dia nos revela a natureza má do homem no conviveu social. O filósofo dá como exemplo o fato de que; mesmo tendo leis que nos protegem não dormimos com as portas abertas. No estado de natureza nenhuma ação é condenatória até que exista uma lei que o proíba. E nenhuma lei pode ser feita antes de eleger um responsável. No estado de natureza não existe noção de justiça e de injustiça. Não existe poder comum e nem lei. O medo da morte e o desejo de viver confortável levaram os homens a entrarem em acordo em prol da paz. Com isso, nasce o Estado.

Com base neste capítulo e analisando o contexto do factum afirmo que um estado democrático de direito só pode ser realmente reconhecido quando reconhece em seus cidadãos os seus direitos estabelecidos e garantidos em leis igualitárias e acima de tudo que respeite a condição humana em sua pluralidade. Só chegaremos realmente a viver em um mundo ético, quando paramos de conjugar o verbo Eu no singular e sim por Nós nos plural, sem pensarmos que deixamos de ser quem somos, mas, reconhecermos no direito dos outros os mesmos direitos nossos numa sociedade democrática constituída.

  Crônica de um corpo que pede pausa. Hoje me peguei pensando no que se passou na semana passada. E nesta semana? Também pensei. Semana pas...