A ADOLESCÊNCIA
(Um laboratório prático na sala de aula e um capítulo a parte em minha vida)
(Um laboratório prático na sala de aula e um capítulo a parte em minha vida)
A liberdade adolescente é uma adolescência da liberdade, uma liberdade de aspiração. (...) A juventude é o tempo de aprendizado da liberdade.
Por que um capítulo sobre a adolescência na Unidade de filosofia moral?
Certamente porque se trata do momento privilegiado da passagem do mundo infantil ao universo adulto, em que o suposto amadurecimento da razão daria os instrumentos para ser assumida a autonomia moral.
Além disso, essa reflexão vale enquanto alerta diante da constatação de que nem sempre as metas do aperfeiçoamento intelectual, afetivo e moral têm sido de fato alcançadas. Eu como professor de filosofia e também licenciado nas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Filosofia da Educação, trago em minha abordagem, inúmeros fatos e argumentações onde, quem ler poderá observar a preocupação na formação do individuo em quanto pessoa, reconhecendo os seus limites. Pratica nada bem vista atualmente por colegas de trabalho, afirmo isto, pois há algum tempo passei por uma situação onde a minha disciplina lecionada em sala e o conteúdo por mim aplicado aos meus alunos, foi severamente, desrespeitado, desmoralizado e visto com desconfiança, por um “grupo de pseudos formadores de opinião no Ensino Público Estadual”. Após a leitura e o embasamento das afirmações abaixo descritas, gostaria que comentassem se discordam da ciência enquanto matéria aplicada em sala.
A crise da adolescência
A adolescência não é um fenômeno universal, Os antropólogos constatam que as sociedades tribais não passam por esse estágio, mesmo porque o advento do mundo adulto se encontra nitidamente marcado pelos "ritos de (Georges Oüsdorf) passagem".
Os rituais introduzem a criança no sistema de valores bem definidos do mundo adulto, não havendo ambigüidades a respeito dos direitos e deveres que o novo estado lhe acarreta.
Em nossa cultura, não só há o período de adolescência, como a tendência é ampliá-lo cada vez mais, na medida em que o tempo de estudo aumenta, adiando a entrada no mercado de trabalho. Torna-se cheio de contradições o espaço de tempo em que a pessoa, abandonando as características infantis, ainda não assumiu as obrigações e responsabilidades da vida adulta.
De início, o adolescente precisa elaborar algumas perdas, como, por exemplo, a do corpo infantil, a do papel e identidade infantis, a dos pais da infância.
Não se reconhece mais no seu corpo, questiona-se a respeito da própria identidade.
Além disso, vive uma situação de ambigüidade: ao mesmo tempo em que hostiliza os pais, deseja sua atenção; tanto deseja viver o novo estado quanto sente perder a familiaridade antiga, que lhe dava mais segurança; depende dos pais, de quem recebe casa, comida e afeto, mas diverge deles quanto aos objetivos de sua conduta; rejeita as interferências nas suas decisões, mas exige o apoio para sua subsistência.
Por outro lado, também a atitude dos pais é ambígua, pois em certos assuntos esperam dos filhos o comportamento adulto (por exemplo, nas responsabilidades de estudo) e, em outros momentos, tratam-nos como crianças (por exemplo, em relação à vida sexual).
Caracteriza-se, assim, a situação de crise. Esta palavra significa "ruptura", e é preciso retomá-la evitando o sentido pejorativo que normalmente lhe é atribuída. Crise pode significar o momento criativo em que o antigo equilíbrio desaparece para dar lugar ao novo.
Crise pode ser condição de crescimento.
De fato, há várias alterações no desenvolvimento infantil, mas nenhuma é tão crucial como a da adolescência. Não se trata de pequenas mudanças quantitativas, mas de um "salto qualitativo" que traz certa perplexidade ao adolescente.
A teoria de Piaget
Para compreendermos o que ocorre na adolescência, vamos utilizar a análise feita pelo psicólogo suíço (e também filósofo) Jean Piaget (1896-1980). Que desenvolveu uma teoria conhecida como psicologia genética, base para o desenvolvimento de fecundas práticas pedagógicas.
Segundo essa teoria, não há inteligência inata, mas a gênese da razão, da afetividade e da moral se faz progressivamente em estágios sucessivos em que a criança organiza o pensamento e o julgamento. Por isso sua teoria e as que dela derivam são chamadas construtivistas, já que o saber é construído pela criança, e não imposto de fora.
Embora por questões didáticas tratemos separadamente a inteligência e a afetividade, elas se acham imbricadas. Enquanto a afetividade é a mola, a energia, a força que impulsiona a ação (tendências, desejos, amor. entusiasmo etc.), a inteligência fornece os meios, esclarece os fins, disciplina a ação.
A fim de compreender a psicogênese em linhas gerais, na evolução da lógica e da moral, resumirei o desenvolvimento mental da criança desde o nascimento até a adolescência.
Vale lembrar, no entanto, que as referências às idades se referem aos padrões de Genebra, cidade onde Piaget fez suas observações e experiências. Dependendo do grupo social a que pertença a criança, haverá variação nas faixas etárias, e pode ser, como já dissemos, que as últimas etapas nem sejam atingidas. (Podemos observar este fato nas escolas publicas do nosso país, salva algumas exceções)
Os quatro estágios
1º estágio: sensório-motor
A maneira pela qual o bebê (de zero a dois anos) conhece o mundo é sobretudo sensório-motora, ou seja, predomina o desenvolvimento das percepções sensoriais e dos movimentos, não se podendo ainda dizer que a criança pensa. Nesse estágio, a inteligência do bebê evolui à medida que ele aprende a coordenar as sensações e os movimentos.
Daí a preocupação em estimular os sentidos com chocalhos, móbiles, brinquedos de encaixe para coordenação motora, sem falarmos no esforço pessoal da criança em engatinhar, subir nos móveis, andar e levar tudo à boca. Pode-se até dizer que o bebê conhece o mundo levando coisas à boca, de tal forma que não há exagero em afirmar que, para ele, "o mundo é uma realidade a sugar". Também Freud se refere a esse período como constituindo a "fase oral", quando a zona erógena (geradora de prazer) se localiza na boca.
Na relação do bebê com as pessoas, há uma indiferenciação, ou seja, a separação entre ele e o mundo não é percebida muito nitidamente.
É como se ele fizesse parte de uma totalidade da qual não consegue distinguir-se como sujeito individual. Podemos ver a descoberta gradativa que faz do seu corpo quando, por volta dos três meses, o encontramos, fascinado, olhando a própria mão. O psicanalista Lacan se refere à "experiência do espelho", pela qual, por volta dos dezoito meses, a criança reconhece a dualidade, descobrindo se separada da mãe e de todo o resto.
2º estágio: intuitivo ou simbólico
O segundo momento (dos dois aos sete anos) começa quando a lógica infantil sofre um salto, resultante da descoberta do símbolo. A realidade pode então ser representada, no sentido de que a palavra torna presente o que está ausente.
Nesse período a inteligência é intuitiva porque não se encontra separada da experiência vivida, isto é, não consegue transpor abstratamente o que foi vivenciado pela percepção.
Por exemplo: mesmo sabendo ir até a casa da avó, a criança é ainda incapaz de reproduzir o caminho num conjunto de pequenos objetos tridimensionais de papelão ou mapa (representando casas, ruas, igrejas etc.).
Isso acontece porque suas lembranças são motoras, e a representação implica uma descentralização da experiência que se acha centrada no próprio corpo da criança quando ela vai de fato à casa da avó.
Outra evidência da incapacidade de abstração e descentralização (ou seja, de colocar se do ponto de vista do outro) aparece quando pedimos à criança que imite nosso gesto, estando defronte a ela: se levantamos a mão direita, ela levanta a esquerda. Repetindo a ação como um espelho.
Trata-se de uma forma de inteligência egocêntrica, que persiste também no nível da afetividade. O egocentrismo infantil não pode ser sumariamente confundido com egoísmo: não é um defeito da criança, mas constitui a própria condição humana nesse estágio.
Egocentrismo significa estar centrado em si mesmo, tanto no aspecto da afetividade como no do conhecimento. Em outras palavras, a criança é o ponto de referência, pensa a partir de si.
Afetivamente acha que o mundo gira em torno dela, quer todas as atenções, não reparte brinquedos, quer o seu desejo satisfeito no instante em que se manifesta; a conversa não é propriamente uma interação, pois é incapaz de discutir e de ouvir o outro: o que há são verdadeiros "monólogos coletivos". Freqüentemente, aos três ou quatro anos, é vista falando sozinha, com seus brinquedos "animados".
Do ponto de vista moral, de inicio não se pode dizer que exista a introjeção (Mecanismo psicológico pelo qual um indivíduo, inconscientemente, se apossa de um fato, ou de uma característica alheia, tornando-o(s) parte de si mesmo, ou volta contra si mesmo a hostilidade sentida por outrem) de regra alguma: vive em um mundo que seria propriamente pré-moral.
Em que predomina a anomia (Ausência de leis, de normas ou de regras de organização).
Além dos exemplos da sua relutância em aceitar as regras do convívio social, é interessante lembrar que ainda não está pronta para os jogos com regras. Após os três ou quatro anos, começa a tornar se capaz de heteronomia (Condição de pessoa ou de grupo que receba de um elemento que lhe é exterior, ou de um princípio estranho à razão, a lei a que se deve submeter), ou seja, de aceitar a norma exterior, tornando-se mais sociável.
3º estágio: operações concretas
No terceiro estágio (de sete a doze anos), a lógica deixa de ser puramente intuitiva e passa a ser operatória. Isso quer dizer que a criança é capaz de interiorizar a ação (processo que não ocorria no exemplo da visita 'a casa da avó').
Passar da intuição para a operação significa tornar-se capaz de constituir sistemas de conjuntos, passíveis ainda de composição e revisão. É o processo que permite realizar as operações matemáticas, perceber a relação lógica do sistema de parentesco, classificar, tornar as intuições moveis e reversíveis. Ora, as percepções intuitivas da primeira infância eram irreversíveis (lembrar o exemplo da mão levantada); tornar essa percepção reversível é ser capaz de operacionalizá-la, por exemplo, inverter mentalmente a sua própria posição, colocando-se no lugar do outro.
A operacionalização no terceiro estagio ainda é concreta, pois depende de certa forma das percepções fornecidas pela intuição. Achando-se presa à experiência vivida. Mesmo assim, como vimos, o pensamento já se torna mais coerente e permite construções lógicas mais aprimoradas.
A força do egocentrismo diminui, pois o discurso lógico tende a ser mais objetivo, estabelece o confronto com a realidade e com os outros discursos e procura alicerçar-se em provas que ultrapassem o nível das explicações mitológicas da fase anterior, o relato das histórias deixa de ser fragmentado e passa a apresentar organização mais estruturada, com começo, meio e fim, já sendo possível um início de discussão.
Do ponto de vista afetivo, os progressos na sociabilidade são percebidos na formação dos grupos que antes se baseavam na contiguidade. E agora são coesos e expressam formas claras de companheirismo. Essa nova organização se dá sob a ação da liderança e confronto de grupos antagônicos. Ilustram bem esse estágio o livro Os meninos da Rua Paulo (Ferenc Molnár) e o filme A guerra dos botões.
Do ponto de vista moral afirma-se a heteronomia, com a introjeção das normas da família e da sociedade. Também nos jogos essa tendência se revela de maneira clara na preferência por aqueles de regras rígidas, como os de botão e bola de gude, cujas normas são seguidas rigorosamente.
4º e ultimo estágio: operações formais
Finalmente, o último estágio é o da adolescência. Quando aparecem as características que marcarão a vida adulta.
O pensamento lógico atinge o nível das operações formais ou abstratas. Isso significa que, além de interiorizar a ação vivida (fase das operações concretas), o adolescente é capaz de distanciar-se da experiência, de tal forma que pode pensar por hipótese. E o amadurecimento do pensamento formal ou hipotético-dedutivo.
O desenvolvimento da reflexão atinge tal estágio que torna possível o pensamento científico, matemático e principalmente filosófico.
Exemplificando: as discussões entabuladas pelos jovens a respeito da família podem partir das experiências vividas particularmente, mas se orientam para a abordagem do tema geral e abstrato da família como instituição. A teorização leva à crítica da própria vivência e à elaboração de um projeto de mudança. Os debates se desenvolvem no nível do discurso, da argumentação apoiada em conceitos.
O processo de desprendimento da própria subjetividade é sinal de que o egocentrismo intelectual está em vias de ser superado.
Afetivamente, a superação se realiza pela cooperação e pela reciprocidade. Os grupos em que persistia a idéia de mando e obediência são substituídos por outros baseados na discussão e no consenso.
A capacidade de reflexão dá condições para o amadurecimento moral, pela organização autônoma das regras e pela livre deliberação.
Reflexão, discussão, reciprocidade, autonomia são termos que aqui se acham enlaçados. Refletir é desdobrar o pensamento, é pensar duas vezes, é tematizar.
É como se trouxéssemos o outro para dentro de nós: refletir é discutir interiormente. Ora, isto é possível porque de fato descobrimos o outro como um alter ego, um outro sujeito, exterior a nós, capaz de uma argumentação que respeitamos.
Da mesma forma, a discussão é a exteriorização da reflexão. Se nos dispusermos a discutir partindo do pressuposto de que não mudaremos de idéia, não haverá discussão, mas "diálogo de surdos". Portanto, a discussão supõe reciprocidade: disponibilidade para ouvir o outro, mas também preservação de nossa individualidade e autonomia.
A construção da consciência moral
Tanto a afetividade como a inteligência resultam da conversão do egocentrismo primitivo:
- a lógica evolui das formas intuitivas ao pensamento abstrato;
- a afetividade, do egocentrismo à reciprocidade e cooperação;
- da relação entre as duas, a consciência moral evolui da anomia, passando pela heteronomia, até atingir a autonomia. E o caminho percorrido pelo desejo até a construção da vontade, suporte da vida livre e moral.
Por isso, só na adolescência surge a possibilidade de um plano de vida. E, se o que caracteriza o homem é a capacidade de fazer projetos, o adolescente se encontra aparelhado intelectual e afetivamente para iniciar essa caminhada verdadeiramente humana.
Dizemos iniciar, pois o desenvolvimento mental é um processo diferente do crescimento orgânico. Este atinge o ápice no início da vida adulta, tem um período de plenitude e tende à evolução regressiva que conduz à velhice. Os esportistas sabem como é curta sua carreira e procuram "pendurar as chuteiras" antes que os sinais da decadência apareçam fortemente.
Não é o que acontece com o desenvolvimento mental, que amadurece na adolescência.
As formas superiores da inteligência e da afetividade têm um "equilíbrio móvel", pois a tendência é ampliar cada vez mais a experiência, e esta por sua vez se enriquece, aperfeiçoa a reflexão e a capacidade de se relacionar. A sabedoria do homem maduro está nesse exercício inesgotável, e por isso ele não cessa nunca de aprender: aprender a conhecer o mundo, aprender a liberdade, aprender o encontro com o outro, o respeito, a tolerância, aprender a democracia.
Tudo isso não se faz automaticamente, pois é necessário aprendizagem. Se o adolescente não é estimulado a desenvolver a reflexão crítica, mas, ao contrário, se encontra submetido à educação dogmática (ou a nenhuma educação, como é o caso dos excluídos da escola), é provável que muito dificilmente atinja os níveis desejáveis do pensamento formal. Do mesmo modo, as pessoas devem ser educadas para a cooperação, sob pena de permanecer infantilmente egocêntricas, o que não é nada raro na sociedade individualista no nosso país.
Assim, na fase de transição, em que se acomoda a uma situação cujo equilíbrio móvel ainda não foi atingido, o adolescente oscila entre o egocentrismo e a superação dele: vivendo a idade metafísica por excelência, o egocentrismo intelectual reside justamente na crença da onipotência da reflexão, como se não coubesse a ela explicar a realidade, mas esta, sim, devesse se adaptar à razão.
Do ponto de vista afetivo também há contradição, resultante da mistura constante de devotamento à humanidade, como um todo abstrato, e intenso egoísmo.
A teoria de Kohlberg
(Outra teoria a ser mostrada)
Lawrence Kohlberg (1927-1987) foi um americano que se dedicou ao estudo da teoria piagetiana, centrando suas preocupações nas questões morais.
Expandiu as experiências aplicando rico material em grupos de controle nos Estados Unidos, Turquia, Israel, analisando essas pessoas por vários anos. Por exemplo, em Chicago acompanhou um grupo de 75 meninos e rapazes que inicialmente tinham de dez a dezesseis anos, por quinze anos, com entrevistas a cada três anos.
Uma das diferenças do trabalho de Kohlherg em relação ao seu mestre está em que ele rejeita a teoria do paralelismo entre a psicogênese do pensamento lógico e a psicogênese da moralidade. Se o desenvolvimento do pensamento lógico formal é condição necessária para a vida moral plena, não é. Entretanto, condição suficiente.
E suas observações comprovam que a maturidade moral geralmente só é atingida (quando é...) apenas pelo adulto, uns dez anos depois da adolescência. E que o nível mais alto de moralidade exige estruturas lógicas novas e mais complexas do que aquelas do pensamento formal.
Kohlberg reformula então a teoria dos estágios morais, distinguindo três grandes níveis de moralidade: o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional.
No nível pré-convencional as regras morais derivam daqueles que as formulam, e sua aceitação se baseia no reconhecimento da autoridade, orientando-se o comportamento a partir dos critérios de obediência e de punição e recompensa.
No nível convencional é superada a fase anterior, valorizando-se o reconhecimento do outro (grupo, família, nação): predominam as expectativas interpessoais e a identificação com as pessoas do grupo a que pertence.
No nível pós-convencional os comportamentos são regulados por princípios.
Os valores independem dos grupos ou das pessoas que os sustentam, porque são princípios universais de justiça: igualdade dos direitos humanos, respeito a dignidade dos seres humanos como pessoas individuais, reconhecimento deque as pessoas são fins em si e precisam ser tratadas como tal.
O resultado das pesquisas empíricas de Kohlberg levou a constatação de que um percentual baixíssimo de cidadãos atingem tal nível de moralidade pós-convencional.
Isso nos faz refletir a respeito das condições sócio-econômicas que excluem uma população tão grande das escolas, bem como nos leva a considerar que na sociedade competitiva e individualista pode parecer utopia aspirar por valores como a justiça, baseados na reciprocidade e no compromisso pessoal.
Texto complementar para ajudar na reflexão:
Para Mirian.
Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Mirian, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Mirian. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves
entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Mirian, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah , já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti-, como teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece " essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou do fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!"
O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Mirian, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia:
"Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Mirian. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é. Tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os "atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou? “É bobice.
Mirian, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mirianzinha. Mas não sejamos ingênuos. Pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongos. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade. Em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Mirian, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois deter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada. afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa
dor. Mirian.
(Paulo Mendes Campos, Para Maria da Graça, in Para gostar de ler; crônicas. São Paulo, Ática, 1979, v. 4, p. 73-76.)
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