Dedico-lhe minha homenagem!
"Cuidado, a vida é pra valer. E não se
engane não, tem uma só. Duas mesmo, que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem
provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada
embaixo: Deus! e com firma reconhecida."
A frase acima é Vinícius de Moraes e a
composição desde texto Eugenio Mussak, com adaptação por minha conta e
contextualização. Só podia ser de transgressores. É uma das partes faladas do
Samba da Bênção, que Vinicius de Moraes compôs e Baden Powell musicou.
Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus
versos, da arte de viver. Pede bênção aos amigos e diz que já viajou em muitas
canções, mas que ainda há muitas para viajar.
Os versos de nosso "poetinha"
resumem como poucos a dupla função da poesia: agrada aos sentidos e faz pensar.
"Cuidado, a vida é pra valer", não é algo a ser desperdiçado, até
porque, "não se engane não, tem uma só". Por isso temos que estar de
bem com ela.
Estar de bem com a vida. Esse é um tema que
ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo
da filosofia, minha ária. "Creio que aqueles que mais entendem de
felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão", disse Nietzsche, para
depois admitir que invejasse a leveza desses seres. "Ver girar essas
pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arranca
lágrimas e canções", completou. Pois até o mal-humorado filósofo alemão
admitiu que há virtude em buscar a paz com o viver.
E o que é estar de bem com a vida senão a
capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da
própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel conosco. Todos
sofremos com as perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso
que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o
estado da alma.
Não me agrada o discurso fácil da auto-ajuda
que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma
obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um
estado definitivo, e com certeza não é um lugar aonde se pode chegar. Por outro
lado, não me agrada também a condição das "vítimas do sistema", que
se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado – Falo da
Educação em SP.
Conheço pessoas que souberam lidar bem com as
dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram
em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema
dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana
por mim tão falada em aulas e palestras. Mas essa não é a questão. Não me
refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso
cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o
tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.
Encontrei pessoas de bem com a vida nas
grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei-as também em
pequenas vilas do interior por onde trabalhei ou do litoral por onde passei. Em
lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranqüilidade e em tempos de
crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a
vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.
Este talvez seja um dos grandes mistérios da psique
humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua
genética ou terá sido sua educação?
Lembro-me de meus colegas de colégio.
Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de
sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser
historiador. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante
e ter um monte de relacionamentos, claro. Afinal, éramos todos adolescentes,
cheios de espinhas e de sonhos.
Havia ali os futuros engenheiros, advogados,
empresários, e até um diplomata – Giovanny! E havia Ricardo. Ele não tinha
planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe
perguntava o que queria ser na vida, ele respondia com um sorriso: "Eu
quero é ser feliz". E eu via sinceridade em sua afirmação.
O Ricardo era desses garotos raros que, ao
contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha
inimigos, não se empatotava para odiar a outra "patota". Não se queixava
das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava
de letra, não ligava quando diziam que éramos filhos de pais separados e por isto
éramos sem futuro.
Ricardo não era rico, nem bonito, nem atleta
talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só
que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.
Estas são as lembranças que tenho de você meu amigo e que resolvi lhe prestar
esta homenagem hoje quando soube que você já não mais me viria visitar,
conversa, chorar, sonhar e me fazer sonhar, cantar e me fazer acreditar na
vida, mesmo ela sendo ruim às vezes conosco e que para apaziguarmos nossa alma víamos
Pedro Almodóvar em casa e depois saímos para bebericar e filosofar sobre. Pois
é, soube hoje que você já não estava mais aqui e soube por telefone ainda cedo.
Quero que saiba e que todos saibam que
continuaremos juntos meu amigo! O que nos afasta também nos uniu mais!
Saudades... E Até breve!
