quinta-feira, 26 de janeiro de 2012


Dedico-lhe minha homenagem!

"Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo, que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida."

A frase acima é Vinícius de Moraes e a composição desde texto Eugenio Mussak, com adaptação por minha conta e contextualização. Só podia ser de transgressores. É uma das partes faladas do Samba da Bênção, que Vinicius de Moraes compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede bênção aos amigos e diz que já viajou em muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.

Os versos de nosso "poetinha" resumem como poucos a dupla função da poesia: agrada aos sentidos e faz pensar. "Cuidado, a vida é pra valer", não é algo a ser desperdiçado, até porque, "não se engane não, tem uma só". Por isso temos que estar de bem com ela.

Estar de bem com a vida. Esse é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia, minha ária. "Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão", disse Nietzsche, para depois admitir que invejasse a leveza desses seres. "Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arranca lágrimas e canções", completou. Pois até o mal-humorado filósofo alemão admitiu que há virtude em buscar a paz com o viver.

E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel conosco. Todos sofremos com as perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.

Não me agrada o discurso fácil da auto-ajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e com certeza não é um lugar aonde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das "vítimas do sistema", que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado – Falo da Educação em SP.

Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana por mim tão falada em aulas e palestras. Mas essa não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.

Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei-as também em pequenas vilas do interior por onde trabalhei ou do litoral por onde passei. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranqüilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.

Este talvez seja um dos grandes mistérios da psique humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?

Lembro-me de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser historiador. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de relacionamentos, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.

Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata – Giovanny! E havia Ricardo. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida, ele respondia com um sorriso: "Eu quero é ser feliz". E eu via sinceridade em sua afirmação.

O Ricardo era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se empatotava para odiar a outra "patota". Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra, não ligava quando diziam que éramos filhos de pais separados e por isto éramos sem futuro.

Ricardo não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida. Estas são as lembranças que tenho de você meu amigo e que resolvi lhe prestar esta homenagem hoje quando soube que você já não mais me viria visitar, conversa, chorar, sonhar e me fazer sonhar, cantar e me fazer acreditar na vida, mesmo ela sendo ruim às vezes conosco e que para apaziguarmos nossa alma víamos Pedro Almodóvar em casa e depois saímos para bebericar e filosofar sobre. Pois é, soube hoje que você já não estava mais aqui e soube por telefone ainda cedo.

Quero que saiba e que todos saibam que continuaremos juntos meu amigo! O que nos afasta também nos uniu mais! Saudades... E Até breve!

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