Crônica de um corpo que pede pausa.
Hoje me peguei pensando no que se passou na semana passada. E nesta semana? Também pensei. Semana passada, eu… fui vencido pela dengue. É, fui infectado. Estava com o corpo em guerra, mas ainda não sabia disso.
Conversei com duas pessoas de confiança, daquelas com quem a gente divide mais que café: divide silêncio, divide dor. Falei sobre o cansaço, a dor no corpo, a exaustão. Mas não era aquele cansaço crônico da rotina, não… era outro. Mais fundo. Falei para elas que estava passando mal e que iria embora mais cedo da escola. Afinal, poucos alunos estavam por lá, os conselhos de classe rolando em paralelo às aulas, no meu trabalho, tudo acontece ao mesmo tempo, o tempo todo.
Isso foi numa quarta-feira. E lá estava eu, fatigado de corpo e alma, sem saber que o vírus já passeava em mim.
Na quinta, 17/04/2025, acordei no mesmo horário de sempre, tentando seguir o ritual da normalidade. Mas o corpo… ah, o corpo já não acompanhava. Estava pesado, como se cada músculo tivesse envelhecido cinquenta anos da noite para o dia. Professor, né? Estamos sempre cansados, mas aquele era outro tipo de cansaço. Não fui trabalhar. Esperei. E quando consegui, fui ao hospital, iamspe.
São Paulo, 7h da manhã. Saí quase ao meio-dia. Sem diagnóstico. Apenas com um cansaço ainda maior, agora misturado com frustração. Voltei para casa. Dormi o fim de semana quase inteiro, como se meu corpo pedisse silêncio.
No domingo, ainda mal. Na segunda, feriado, aproveitei e voltei ao hospital. Cinco horas depois, finalmente o diagnóstico: dengue. Mas já no finalzinho, disseram. Um pouco tarde, mas alívio, de certa forma. Mediquei, voltei para casa.
E foi aí que começaram minhas perguntas. Aquelas que a gente faz quando o corpo para, mas a cabeça continua no ritmo acelerado. Eu me perguntei: o quanto nós, trabalhadores, professores, somos importantes para o nosso ambiente de trabalho?
Quando dizemos que estamos doentes… será que acreditam? Ou pensam ser preguiça? Má vontade? Jeitinho?
Eu dou tudo que me pedem. E se você for ansioso como eu, dá um pouco mais. Às vezes até o que não pediram. As pessoas elogiam. Mas isso não me faz querer um busto no corredor nem uma placa com meu nome. Muito pelo contrário, prefiro a discrição. Só que fico pensando…
Naquele dia, ainda tentei avisar. Passei numa sala à tarde, encontrei três alunos (o resto vagava pela escola), e avisei: “Olha, avisem os colegas que semana que vem tem apresentação da disciplina. Eu não estou bem. Acho que vou ao hospital.”
Criança é criança, né? Deu ruim. Fui chamado. “Você saiu e não avisou.”
Veja bem, não estou dizendo que quem me chamou a atenção estava errado. Não estava. Eles estão certos. Primeiro, porque pensam neles. Segundo, porque eu, de certa forma, estou abaixo. Terceiro, porque não formalizei a ausência. E quarto, o mais importante, porque trabalhar com pessoas infantis exige isso: a gente não entrega responsabilidade para criança. Nós somos a responsabilidade.
Escrevo esse texto como um desabafo. Uma reflexão. Me fazendo perguntas.
Sobre quem sou.
Sobre o que faço.
Sobre o que me move ou me paralisa.
E se tudo isso, afinal… vale a pena?
Só isso.

