terça-feira, 22 de abril de 2025


 Crônica: “Os Ossos do Ofício e a Dengue que Me Parou”

Na semana passada, descobri que estava com dengue. Não foi um diagnóstico imediato, primeiro veio aquele cansaço que parecia apenas mais um dia exaustivo de professor. Dor no corpo, peso nos movimentos, a mente nebulosa. Tudo isso eu atribuí à rotina: afinal, na escola, somos multitarefas por natureza. Conselhos de classe, aulas, alunos dispersos, tudo acontece ao mesmo tempo, e a gente segue.

Na quarta-feira, já não aguentava. Avisei duas pessoas próximas que estava mal e fui embora. Na quinta, acordei no horário de sempre, mas meu corpo parecia feito de chumbo. “São os ossos do ofício”, pensei. Só que não. Não fui trabalhar. Decidi ir ao hospital, onde passei das 7 da manhã até quase o meio-dia. Saí sem respostas, apenas com a certeza de que precisava dormir. E dormi. O final de semana inteiro foi um vácuo de sonolência.

Na segunda-feira, feriado, voltei ao hospital. Cinco horas de espera e, finalmente, o veredito: dengue. Já no final, mas ainda assim, dengue. E enquanto me medicava em casa, comecei a refletir não sobre a doença, mas sobre o que ela revelou.

Quantas vezes nós, professores (ou qualquer trabalhador), nos perguntamos se somos realmente importantes no nosso ambiente? Quando adoecemos, será que as pessoas entendem que não é preguiça, não é má vontade, não é "jeitinho”? Eu, que sempre dei tudo e, sendo ansioso, até um pouco mais, me vi questionando: será que isso importa? As pessoas elogiam meu trabalho, mas e daí? Não quero bustos nem placas comemorativas. Quero, talvez, apenas a compreensão de que sou humano.

Naquela semana, ainda tentei cumprir meu papel. Entrei numa sala de aula vazia só três alunos, os outros dispersos pela escola e avisei sobre uma apresentação futura. “Não estou bem, talvez vá ao hospital”, disse. E, como era previsível, deu problema. Fui chamado à atenção. Não culpo ninguém: estão certos. Primeiro, porque cada um pensa em si; segundo, porque hierarquias existem; terceiro, porque não formalizei minha saída; quarto, porque trabalho com crianças e criança não assume responsabilidade, nós é que somos a responsabilidade.

Escrevo isso como desabafo, mas também como reflexão. Quem sou eu no meio disso tudo? O que faço vale a pena? A dengue passou, mas as perguntas ficaram. E, no fim, a única certeza é que, doente ou saudável, a vida segue e a gente junto, carregando não só os ossos do ofício, mas as dúvidas que eles trazem.

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