quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Prof. Charles Rogers Souza da Silva Messer -Apresentação de Canto Gregoriano no Mosteiro de São Bento)
Um pouco da minha vida e do meu modo de viver। Sou a favor da liberdade religiosa e das manifestações culturais entre todas as religiões।
Eis uma manifestação cultural neste vídeo.




A ADOLESCÊNCIA
(Um laboratório prático na sala de aula e um capítulo a parte em minha vida)

A liberdade adolescente é uma adolescência da liberdade, uma liberdade de aspiração. (...) A juventude é o tempo de aprendizado da liberdade.
Por que um capítulo sobre a adolescência na Unidade de filosofia moral?
Certamente porque se trata do momento privilegiado da passagem do mundo infantil ao universo adulto, em que o suposto amadurecimento da razão daria os instrumentos para ser assumida a autonomia moral.
Além disso, essa reflexão vale enquanto alerta diante da constatação de que nem sempre as metas do aperfeiçoamento intelectual, afetivo e moral têm sido de fato alcançadas. Eu como professor de filosofia e também licenciado nas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Filosofia da Educação, trago em minha abordagem, inúmeros fatos e argumentações onde, quem ler poderá observar a preocupação na formação do individuo em quanto pessoa, reconhecendo os seus limites. Pratica nada bem vista atualmente por colegas de trabalho, afirmo isto, pois há algum tempo passei por uma situação onde a minha disciplina lecionada em sala e o conteúdo por mim aplicado aos meus alunos, foi severamente, desrespeitado, desmoralizado e visto com desconfiança, por um “grupo de pseudos formadores de opinião no Ensino Público Estadual”. Após a leitura e o embasamento das afirmações abaixo descritas, gostaria que comentassem se discordam da ciência enquanto matéria aplicada em sala.


A crise da adolescência

A adolescência não é um fenômeno universal, Os antropólogos constatam que as sociedades tribais não passam por esse estágio, mesmo porque o advento do mundo adulto se encontra nitidamente marcado pelos "ritos de (Georges Oüsdorf) passagem".
Os rituais introduzem a criança no sistema de valores bem definidos do mundo adulto, não havendo ambigüidades a respeito dos direitos e deveres que o novo estado lhe acarreta.
Em nossa cultura, não só há o período de adolescência, como a tendência é ampliá-lo cada vez mais, na medida em que o tempo de estudo aumenta, adiando a entrada no mercado de trabalho. Torna-se cheio de contradições o espaço de tempo em que a pessoa, abandonando as características infantis, ainda não assumiu as obrigações e responsabilidades da vida adulta.
De início, o adolescente precisa elaborar algumas perdas, como, por exemplo, a do corpo infantil, a do papel e identidade infantis, a dos pais da infância.
Não se reconhece mais no seu corpo, questiona-se a respeito da própria identidade.

Além disso, vive uma situação de ambigüidade: ao mesmo tempo em que hostiliza os pais, deseja sua atenção; tanto deseja viver o novo estado quanto sente perder a familiaridade antiga, que lhe dava mais segurança; depende dos pais, de quem recebe casa, comida e afeto, mas diverge deles quanto aos objetivos de sua conduta; rejeita as interferências nas suas decisões, mas exige o apoio para sua subsistência.
Por outro lado, também a atitude dos pais é ambígua, pois em certos assuntos esperam dos filhos o comportamento adulto (por exemplo, nas responsabilidades de estudo) e, em outros momentos, tratam-nos como crianças (por exemplo, em relação à vida sexual).
Caracteriza-se, assim, a situação de crise. Esta palavra significa "ruptura", e é preciso retomá-la evitando o sentido pejorativo que normalmente lhe é atribuída. Crise pode significar o momento criativo em que o antigo equilíbrio desaparece para dar lugar ao novo.
Crise pode ser condição de crescimento.
De fato, há várias alterações no desenvolvimento infantil, mas nenhuma é tão crucial como a da adolescência. Não se trata de pequenas mudanças quantitativas, mas de um "salto qualitativo" que traz certa perplexidade ao adolescente.


A teoria de Piaget

Para compreendermos o que ocorre na adolescência, vamos utilizar a análise feita pelo psicólogo suíço (e também filósofo) Jean Piaget (1896-1980). Que desenvolveu uma teoria conhecida como psicologia genética, base para o desenvolvimento de fecundas práticas pedagógicas.
Segundo essa teoria, não há inteligência inata, mas a gênese da razão, da afetividade e da moral se faz progressivamente em estágios sucessivos em que a criança organiza o pensamento e o julgamento. Por isso sua teoria e as que dela derivam são chamadas construtivistas, já que o saber é construído pela criança, e não imposto de fora.
Embora por questões didáticas tratemos separadamente a inteligência e a afetividade, elas se acham imbricadas. Enquanto a afetividade é a mola, a energia, a força que impulsiona a ação (tendências, desejos, amor. entusiasmo etc.), a inteligência fornece os meios, esclarece os fins, disciplina a ação.
A fim de compreender a psicogênese em linhas gerais, na evolução da lógica e da moral, resumirei o desenvolvimento mental da criança desde o nascimento até a adolescência.
Vale lembrar, no entanto, que as referências às idades se referem aos padrões de Genebra, cidade onde Piaget fez suas observações e experiências. Dependendo do grupo social a que pertença a criança, haverá variação nas faixas etárias, e pode ser, como já dissemos, que as últimas etapas nem sejam atingidas. (Podemos observar este fato nas escolas publicas do nosso país, salva algumas exceções)

Os quatro estágios

1º estágio: sensório-motor

A maneira pela qual o bebê (de zero a dois anos) conhece o mundo é sobretudo sensório-motora, ou seja, predomina o desenvolvimento das percepções sensoriais e dos movimentos, não se podendo ainda dizer que a criança pensa. Nesse estágio, a inteligência do bebê evolui à medida que ele aprende a coordenar as sensações e os movimentos.
Daí a preocupação em estimular os sentidos com chocalhos, móbiles, brinquedos de encaixe para coordenação motora, sem falarmos no esforço pessoal da criança em engatinhar, subir nos móveis, andar e levar tudo à boca. Pode-se até dizer que o bebê conhece o mundo levando coisas à boca, de tal forma que não há exagero em afirmar que, para ele, "o mundo é uma realidade a sugar". Também Freud se refere a esse período como constituindo a "fase oral", quando a zona erógena (geradora de prazer) se localiza na boca.
Na relação do bebê com as pessoas, há uma indiferenciação, ou seja, a separação entre ele e o mundo não é percebida muito nitidamente.
É como se ele fizesse parte de uma totalidade da qual não consegue distinguir-se como sujeito individual. Podemos ver a descoberta gradativa que faz do seu corpo quando, por volta dos três meses, o encontramos, fascinado, olhando a própria mão. O psicanalista Lacan se refere à "experiência do espelho", pela qual, por volta dos dezoito meses, a criança reconhece a dualidade, descobrindo se separada da mãe e de todo o resto.

2º estágio: intuitivo ou simbólico

O segundo momento (dos dois aos sete anos) começa quando a lógica infantil sofre um salto, resultante da descoberta do símbolo. A realidade pode então ser representada, no sentido de que a palavra torna presente o que está ausente.
Nesse período a inteligência é intuitiva porque não se encontra separada da experiência vivida, isto é, não consegue transpor abstratamente o que foi vivenciado pela percepção.
Por exemplo: mesmo sabendo ir até a casa da avó, a criança é ainda incapaz de reproduzir o caminho num conjunto de pequenos objetos tridimensionais de papelão ou mapa (representando casas, ruas, igrejas etc.).
Isso acontece porque suas lembranças são motoras, e a representação implica uma descentralização da experiência que se acha centrada no próprio corpo da criança quando ela vai de fato à casa da avó.
Outra evidência da incapacidade de abstração e descentralização (ou seja, de colocar se do ponto de vista do outro) aparece quando pedimos à criança que imite nosso gesto, estando defronte a ela: se levantamos a mão direita, ela levanta a esquerda. Repetindo a ação como um espelho.
Trata-se de uma forma de inteligência egocêntrica, que persiste também no nível da afetividade. O egocentrismo infantil não pode ser sumariamente confundido com egoísmo: não é um defeito da criança, mas constitui a própria condição humana nesse estágio.
Egocentrismo significa estar centrado em si mesmo, tanto no aspecto da afetividade como no do conhecimento. Em outras palavras, a criança é o ponto de referência, pensa a partir de si.
Afetivamente acha que o mundo gira em torno dela, quer todas as atenções, não reparte brinquedos, quer o seu desejo satisfeito no instante em que se manifesta; a conversa não é propriamente uma interação, pois é incapaz de discutir e de ouvir o outro: o que há são verdadeiros "monólogos coletivos". Freqüentemente, aos três ou quatro anos, é vista falando sozinha, com seus brinquedos "animados".
Do ponto de vista moral, de inicio não se pode dizer que exista a introjeção (Mecanismo psicológico pelo qual um indivíduo, inconscientemente, se apossa de um fato, ou de uma característica alheia, tornando-o(s) parte de si mesmo, ou volta contra si mesmo a hostilidade sentida por outrem) de regra alguma: vive em um mundo que seria propriamente pré-moral.
Em que predomina a anomia (Ausência de leis, de normas ou de regras de organização).
Além dos exemplos da sua relutância em aceitar as regras do convívio social, é interessante lembrar que ainda não está pronta para os jogos com regras. Após os três ou quatro anos, começa a tornar se capaz de heteronomia (Condição de pessoa ou de grupo que receba de um elemento que lhe é exterior, ou de um princípio estranho à razão, a lei a que se deve submeter), ou seja, de aceitar a norma exterior, tornando-se mais sociável.

3º estágio: operações concretas

No terceiro estágio (de sete a doze anos), a lógica deixa de ser puramente intuitiva e passa a ser operatória. Isso quer dizer que a criança é capaz de interiorizar a ação (processo que não ocorria no exemplo da visita 'a casa da avó').
Passar da intuição para a operação significa tornar-se capaz de constituir sistemas de conjuntos, passíveis ainda de composição e revisão. É o processo que permite realizar as operações matemáticas, perceber a relação lógica do sistema de parentesco, classificar, tornar as intuições moveis e reversíveis. Ora, as percepções intuitivas da primeira infância eram irreversíveis (lembrar o exemplo da mão levantada); tornar essa percepção reversível é ser capaz de operacionalizá-la, por exemplo, inverter mentalmente a sua própria posição, colocando-se no lugar do outro.
A operacionalização no terceiro estagio ainda é concreta, pois depende de certa forma das percepções fornecidas pela intuição. Achando-se presa à experiência vivida. Mesmo assim, como vimos, o pensamento já se torna mais coerente e permite construções lógicas mais aprimoradas.
A força do egocentrismo diminui, pois o discurso lógico tende a ser mais objetivo, estabelece o confronto com a realidade e com os outros discursos e procura alicerçar-se em provas que ultrapassem o nível das explicações mitológicas da fase anterior, o relato das histórias deixa de ser fragmentado e passa a apresentar organização mais estruturada, com começo, meio e fim, já sendo possível um início de discussão.
Do ponto de vista afetivo, os progressos na sociabilidade são percebidos na formação dos grupos que antes se baseavam na contiguidade. E agora são coesos e expressam formas claras de companheirismo. Essa nova organização se dá sob a ação da liderança e confronto de grupos antagônicos. Ilustram bem esse estágio o livro Os meninos da Rua Paulo (Ferenc Molnár) e o filme A guerra dos botões.
Do ponto de vista moral afirma-se a heteronomia, com a introjeção das normas da família e da sociedade. Também nos jogos essa tendência se revela de maneira clara na preferência por aqueles de regras rígidas, como os de botão e bola de gude, cujas normas são seguidas rigorosamente.

4º e ultimo estágio: operações formais

Finalmente, o último estágio é o da adolescência. Quando aparecem as características que marcarão a vida adulta.
O pensamento lógico atinge o nível das operações formais ou abstratas. Isso significa que, além de interiorizar a ação vivida (fase das operações concretas), o adolescente é capaz de distanciar-se da experiência, de tal forma que pode pensar por hipótese. E o amadurecimento do pensamento formal ou hipotético-dedutivo.
O desenvolvimento da reflexão atinge tal estágio que torna possível o pensamento científico, matemático e principalmente filosófico.
Exemplificando: as discussões entabuladas pelos jovens a respeito da família podem partir das experiências vividas particularmente, mas se orientam para a abordagem do tema geral e abstrato da família como instituição. A teorização leva à crítica da própria vivência e à elaboração de um projeto de mudança. Os debates se desenvolvem no nível do discurso, da argumentação apoiada em conceitos.
O processo de desprendimento da própria subjetividade é sinal de que o egocentrismo intelectual está em vias de ser superado.
Afetivamente, a superação se realiza pela cooperação e pela reciprocidade. Os grupos em que persistia a idéia de mando e obediência são substituídos por outros baseados na discussão e no consenso.
A capacidade de reflexão dá condições para o amadurecimento moral, pela organização autônoma das regras e pela livre deliberação.
Reflexão, discussão, reciprocidade, autonomia são termos que aqui se acham enlaçados. Refletir é desdobrar o pensamento, é pensar duas vezes, é tematizar.
É como se trouxéssemos o outro para dentro de nós: refletir é discutir interiormente. Ora, isto é possível porque de fato descobrimos o outro como um alter ego, um outro sujeito, exterior a nós, capaz de uma argumentação que respeitamos.
Da mesma forma, a discussão é a exteriorização da reflexão. Se nos dispusermos a discutir partindo do pressuposto de que não mudaremos de idéia, não haverá discussão, mas "diálogo de surdos". Portanto, a discussão supõe reciprocidade: disponibilidade para ouvir o outro, mas também preservação de nossa individualidade e autonomia.

A construção da consciência moral

Tanto a afetividade como a inteligência resultam da conversão do egocentrismo primitivo:
- a lógica evolui das formas intuitivas ao pensamento abstrato;
- a afetividade, do egocentrismo à reciprocidade e cooperação;
- da relação entre as duas, a consciência moral evolui da anomia, passando pela heteronomia, até atingir a autonomia. E o caminho percorrido pelo desejo até a construção da vontade, suporte da vida livre e moral.
Por isso, só na adolescência surge a possibilidade de um plano de vida. E, se o que caracteriza o homem é a capacidade de fazer projetos, o adolescente se encontra aparelhado intelectual e afetivamente para iniciar essa caminhada verdadeiramente humana.
Dizemos iniciar, pois o desenvolvimento mental é um processo diferente do crescimento orgânico. Este atinge o ápice no início da vida adulta, tem um período de plenitude e tende à evolução regressiva que conduz à velhice. Os esportistas sabem como é curta sua carreira e procuram "pendurar as chuteiras" antes que os sinais da decadência apareçam fortemente.
Não é o que acontece com o desenvolvimento mental, que amadurece na adolescência.

As formas superiores da inteligência e da afetividade têm um "equilíbrio móvel", pois a tendência é ampliar cada vez mais a experiência, e esta por sua vez se enriquece, aperfeiçoa a reflexão e a capacidade de se relacionar. A sabedoria do homem maduro está nesse exercício inesgotável, e por isso ele não cessa nunca de aprender: aprender a conhecer o mundo, aprender a liberdade, aprender o encontro com o outro, o respeito, a tolerância, aprender a democracia.
Tudo isso não se faz automaticamente, pois é necessário aprendizagem. Se o adolescente não é estimulado a desenvolver a reflexão crítica, mas, ao contrário, se encontra submetido à educação dogmática (ou a nenhuma educação, como é o caso dos excluídos da escola), é provável que muito dificilmente atinja os níveis desejáveis do pensamento formal. Do mesmo modo, as pessoas devem ser educadas para a cooperação, sob pena de permanecer infantilmente egocêntricas, o que não é nada raro na sociedade individualista no nosso país.

Assim, na fase de transição, em que se acomoda a uma situação cujo equilíbrio móvel ainda não foi atingido, o adolescente oscila entre o egocentrismo e a superação dele: vivendo a idade metafísica por excelência, o egocentrismo intelectual reside justamente na crença da onipotência da reflexão, como se não coubesse a ela explicar a realidade, mas esta, sim, devesse se adaptar à razão.
Do ponto de vista afetivo também há contradição, resultante da mistura constante de devotamento à humanidade, como um todo abstrato, e intenso egoísmo.

A teoria de Kohlberg
(Outra teoria a ser mostrada)

Lawrence Kohlberg (1927-1987) foi um americano que se dedicou ao estudo da teoria piagetiana, centrando suas preocupações nas questões morais.
Expandiu as experiências aplicando rico material em grupos de controle nos Estados Unidos, Turquia, Israel, analisando essas pessoas por vários anos. Por exemplo, em Chicago acompanhou um grupo de 75 meninos e rapazes que inicialmente tinham de dez a dezesseis anos, por quinze anos, com entrevistas a cada três anos.
Uma das diferenças do trabalho de Kohlherg em relação ao seu mestre está em que ele rejeita a teoria do paralelismo entre a psicogênese do pensamento lógico e a psicogênese da moralidade. Se o desenvolvimento do pensamento lógico formal é condição necessária para a vida moral plena, não é. Entretanto, condição suficiente.
E suas observações comprovam que a maturidade moral geralmente só é atingida (quando é...) apenas pelo adulto, uns dez anos depois da adolescência. E que o nível mais alto de moralidade exige estruturas lógicas novas e mais complexas do que aquelas do pensamento formal.
Kohlberg reformula então a teoria dos estágios morais, distinguindo três grandes níveis de moralidade: o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional.
No nível pré-convencional as regras morais derivam daqueles que as formulam, e sua aceitação se baseia no reconhecimento da autoridade, orientando-se o comportamento a partir dos critérios de obediência e de punição e recompensa.
No nível convencional é superada a fase anterior, valorizando-se o reconhecimento do outro (grupo, família, nação): predominam as expectativas interpessoais e a identificação com as pessoas do grupo a que pertence.
No nível pós-convencional os comportamentos são regulados por princípios.
Os valores independem dos grupos ou das pessoas que os sustentam, porque são princípios universais de justiça: igualdade dos direitos humanos, respeito a dignidade dos seres humanos como pessoas individuais, reconhecimento deque as pessoas são fins em si e precisam ser tratadas como tal.
O resultado das pesquisas empíricas de Kohlberg levou a constatação de que um percentual baixíssimo de cidadãos atingem tal nível de moralidade pós-convencional.
Isso nos faz refletir a respeito das condições sócio-econômicas que excluem uma população tão grande das escolas, bem como nos leva a considerar que na sociedade competitiva e individualista pode parecer utopia aspirar por valores como a justiça, baseados na reciprocidade e no compromisso pessoal.


Texto complementar para ajudar na reflexão:

Para Mirian.

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Mirian, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Mirian. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves
entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Mirian, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah , já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti-, como teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece " essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou do fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!"
O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Mirian, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia:
"Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Mirian. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é. Tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os "atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou? “É bobice.
Mirian, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mirianzinha. Mas não sejamos ingênuos. Pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongos. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade. Em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Mirian, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois deter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada. afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa
dor. Mirian.

(Paulo Mendes Campos, Para Maria da Graça, in Para gostar de ler; crônicas. São Paulo, Ática, 1979, v. 4, p. 73-76.)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Invisível, mas não ausente, a morte sempre um estado presente.

Quando morreu, no século XIX, Victor Hugo arrastou nada menos que dois milhões de acompanhantes em seu cortejo fúnebre, em plena Paris.
Lutador das causas sociais, defensor dos oprimidos, divulgador do ensino e da educação, o genial literato deixou textos inéditos que, por sua vontade, somente foram publicados após a sua morte.
Um deles fala exatamente do homem e da imortalidade e se traduz mais ou menos nas seguintes palavras:

"A morte não é o fim de tudo. Ela não é senão o fim de uma coisa e o começo de outra. Na morte o homem acaba, e a alma começa.

"Que digam esses que atravessam a hora fúnebre, a última alegria, a primeira do luto. Digam se não é verdade que ainda há ali alguém, e que não acabou tudo?

"Eu sou uma alma. Bem sinto que o que darei ao túmulo não é o meu eu, o meu ser. O que constitui o meu eu, irá além.

"O homem é um prisioneiro. O prisioneiro escala penosamente os muros da sua masmorra, coloca o pé em todas as saliências e sobe até ao respiradouro.

"Aí, olha, distingue ao longe a campina, aspira o ar livre, vê a luz.

"Assim é o homem. O prisioneiro não duvida que encontrará a claridade do dia, a liberdade. Como pode o homem duvidar se vai encontrar a eternidade à sua saída?

"Por que não possuirá ele um corpo sutil, etéreo, de que o nosso corpo humano não pode ser senão um esboço grosseiro?

"A alma tem sede do absoluto e o absoluto não é deste mundo. É por demais pesado para esta terra.

"O mundo luminoso é o mundo invisível. O mundo do luminoso é o que não vemos. Os nossos olhos carnais só vêem a noite.

"A morte é uma mudança de vestimenta. A alma, que estava vestida de sombra, vai ser vestida de luz.

"Na morte o homem fica sendo imortal. A vida é o poder que tem o corpo de manter a alma sobre a terra, pelo peso que faz nela.

"A morte é uma continuação. Para além das sombras, estendes-se o brilho da eternidade.

"As almas passam de uma esfera para outra, tornam-se cada vez mais luz, aproximam-se cada vez mais e mais de Deus.

"O ponto de reunião é no infinito.

"Aquele que dorme e desperta, desperta e vê que é homem.

"Aquele que é vivo e morre, desperta e vê que é Espírito."

Muitos consideram que o falecimento de uma pessoa amada é verdadeira desgraça, quando, em verdade, morrer não é finar-se nem consumir-se, mas libertar-se. Um belo pensamento socrático (Sócrates Filósofo Ateniense, que não teve medo do seu encontro com a morte)

Assim, diante dos que partiram na direção da morte, assuma o compromisso de preparar-se para o reencontro com eles na vida espiritual.

Prossegue em sua jornada na terra sem adiar as realizações superiores que lhe competem, pois elas serão valiosas, quando você fizer a grande viagem, rumo à madrugada clarificadora da eternidade.


"O sinal mais seguro da sabedoria é a constante serenidade."

Michel de Montaigne

"Faço com os meus amigos o que faço com os meus livros, guardo-os onde possa encontrá-los mas os uso raramente."
"O prazer do trabalho aperfeiçoa a obra."

Aristóteles


Viver e não ter a vergonha de ser feliz!
Amigos!
Assim vivo e quero morrer ....



A morte do Bolo!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007



Ser um Cenobita ou Eremita?
Ficar só faz bem?!

Vamos pensar no caso juntos...

“Uma pessoa pode se sentir bem apenas com sua própria companhia?
Como transpor essa característica na relação com outras pessoas?”

Certa vez almocei, em Olinda, com minha tia (de abençoada memória) uma mulher muito ponderada e justa. “Ela era quase um sábio-rabbi”, pelo menos quem a conheceu dizia isto. Durante a conversa do agradável almoço, ela me contou que estava se preparando para, pela segunda vez, percorrer o famoso caminho religioso que alguns judeus têm que fazer em sua vida. Quando indaguei sobre o que a motivava a refazer tal aventura, ela me disse, calmamente: “É que ainda deixei alguns assuntos pendentes comigo e preciso fazê-lo sozinha”.

A resposta da minha tia teve sobre mim um efeito revelador, impactante, violento, quase um soco no estômago, pois naquele momento pensei sobre quantos assuntos eu, provavelmente, tinha pendentes em minha vida. Então, na viagem de volta para São Paulo, usei as horas de vôo para fazer uma lista de tais pendências, com o cuidado de relacionar as pessoas a quem as mesmas se referiam. Isso foi fundamental, pois tomei um imenso susto: o sujeito principal de minhas pendências, que não eram poucas, era eu mesmo. Era a mim que eu devia a maioria das explicações, respostas e justificativas. Era eu mesmo que estava do outro lado da linha do telefone imaginário, enquanto eu - o outro eu - dizia, como um atendente de telemarketing emocional: “Vou estar transferindo sua pergunta para o Universo. Por favor, aguarde e não perca a esperança. Sua ligação é muito importante para nós”.

Olhei pela janela do avião e comecei a refletir que, se a conversa com minha tia não me convenceu a passar um mês caminhando pelo interior de algum lugar desta terra de meu D’us, com certeza criou em mim um forte desejo de viajar por meu próprio interior, percorrendo o caminho dos meus valores, subindo as colinas dos meus medos, visitando os vales dos meus sonhos. Percebi que era essa a viagem que eu estava precisando fazer, para a qual não existem roteiros pré-formatados nem guias turísticos disponíveis. Naquele momento eu estava viajando a cerca de 900 quilômetros por hora, e não pude evitar a lembrança de uma frase de R.W. Emerson: “O que está atrás de nós e o que está à nossa frente são coisa pouca, comparados com o que está dentro de nós”.

Viagem rumo ao interior

Quando examinei ainda mais de perto a proposta dessa viagem interior, entendi que ela era importante por dois motivos: primeiro porque, enquanto eu não encontrasse a paz interior, carregaria os conflitos para onde quer que eu fosse, o tempo todo. Segundo porque a qualidade das relações com as outras pessoas depende, a priori, da qualidade da relação que eu estabeleço comigo mesmo. Bingo!(risos) Estou precisando ficar um pouco sozinho, travando duros, mas necessários, diálogos interiores. Pousei em São Paulo carregando na bagagem o firme propósito de me dedicar mais a mim mesmo.

Pois é, mas como? Essa é a pergunta que vale 1 milhão. Como criar uma relação interna se as relações externas demandam muito de nosso tempo? Como conversar comigo mesmo sem ser atrapalhado pelos ruídos exteriores, cada vez mais fortes? Como dizer ao resto do mundo: “Agora não posso, estou ocupado comigo mesmo!”?

Deduzi que precisava ter disciplina para estar mais tempo em minha companhia. E, para isso, foi necessário criar oportunidades para estar só, sem precisar viajar para o Tibete nem percorrer o caminho de Santiago ou ir para o deserto próximo de Jerusalém. É uma questão de pragmatismo. Estar só, não por imposição, mas por opção, é a única chance em que o estar só não se transforma em um sofrimento, nem faz surgir aquele sentimento maldito de abandono e de desespero.
Lembrei-me, então, da época em que fiz terapia numa comunidade monástica, e o monge responsável me dizia: “Você está aqui comigo para se encontrar com você mesmo. Eu sou apenas o caminho, o meio, mas não terei nenhum valor se você não chegar ao fim da jornada, ao seu interior, sozinho”. E não é que ele tinha razão, o danado? Eu ia ao claustro ou a cela para ficar sozinho, para me encontrar comigo mesmo, e não para visitá-lo.

Pois é, às vezes nós precisamos do outro até para ficarmos sozinhos. Essa aparente incongruência é uma herança de nossa história humana, em que a sobrevivência de cada um dependia do grupo. Ainda depende, mas o coletivo às vezes faz o contrário, e acaba matando o individual. É quando você perde o valor de sua própria essência e passa a ser apenas parte de um todo. Nesse caso, seus valores são os valores do grupo, seus sonhos são sonhados em conjunto, seus medos são compartilhados porque são comuns. E você é levado pela onda e deixa de ser você mesmo, uma vez que não se dá o direito de ficar só, e, aliás, nem acha que isso tem alguma importância. Cuidado! Você pode estar com a síndrome do coletivismo, que faz a pessoa sentir-se segura apenas quando está acompanhada. Equivale a ter medo de si mesma.
Por isso, até em respeito ao outro, precisamos criar os momentos para estarmos apenas conosco, sem depender de outras pessoas; ou apesar delas. Há meios clássicos, como retiros, mosteiros e templos das várias religiões, mas eles são apenas isso ­ meios. De nada adiantarão se você não criar a consciência do estar só, que é diferente de ser solitário. Aliás, entender essa diferença é o primeiro passo.

Só, mas não solitário

Em latim há um recurso lingüístico para entendermos essa sutileza. Recorrendo à língua clássica, encontramos duas palavras distintas: coenobita e (Indivíduo que leva vida retirada, mas em comum com outros que têm seus mesmos interesses, princípios ou prerrogativas.) eremita. Parecem sinônimos, mas não são. Traduzindo, eremita quer dizer exatamente solidão, a condição de estar isolado, desacompanhado, solitário, abandonado. É triste estar em um eremitério! Já cenobita tem um sentido positivo junto em coletivo ­ significa que você está isolado, sim, mas porque você decidiu se isolar. Significa estar em companhia de si mesmo com algum objetivo nobre, como refletir, meditar, acalmar-se.

O interessante é que a primeira situação pode ser obtida independentemente de se estar ou não afastado de pessoas. O habitante de uma grande cidade, cercado por milhares ou até milhões de pessoas, pode estar no mais profundo estado de cenobítico. É possível ser um solitário até convivendo e dormindo com outra pessoa ­ que é o pior dos castigos. Na outra mão, buscar um estado de solidão voluntária, estar em um cenóbio, pressupõe dar um tempo nas relações, o que pode acontecer até dentro de casa, naquele momento em que você pede - e é entendido - para permanecer quieto, em seu canto.
A grande vantagem de estar só é a ausência de interferências. Quando estamos acompanhados, ainda que por apenas uma pessoa, nosso pensamento receberá, necessariamente, a influência do pensamento do outro. E isto é bom, pois as interações ampliam os conceitos, aumentam a compreensão, enriquecem a cultura, esclarecem as dúvidas. Até aí, tudo bem, mas que é necessário interromper a ligação um pouco, para decantar as idéias, ninguém questiona.
O poeta indiano Rabindranat Tagore, ganhador de Nobel, disse, a respeito de estar só: “Nunca ninguém se perdeu; tudo é verdade e caminho”. Para o poeta pensador, estar só é parte da estratégia da vida para nossa evolução.
Pensando bem, foi quando estava só que eu tive os grandes momentos de inspiração, tomei as principais decisões de minha vida, cheguei mais fundo na análise de minhas angústias, experimentei o prazer de minhas certezas. É quando estou só que a leitura faz mais efeito e a escrita flui com naturalidade.
Sozinho, percebo que a música está tentando me fazer companhia. Foi na imensa solidão de meu pequeno quarto de adolescente que decidi que iria dedicar-me a algo que envolvesse a alma humana.
Gosto imensamente das pessoas no meu trabalho e da pessoa que esta ao meu lado atualmente, possuo uma legião de amigos alegres e disponíveis. Sou dessas pessoas privilegiadas que podem se dar ao luxo de estar com alguém em todas as ocasiões. Mesmo assim, preciso da solidão, do cenobismo redentor. É claro que a solidão seria imensamente angustiante se não tivéssemos o poder de interrompê- la buscando a companhia de alguém. Pois, da mesma maneira, a convivência com pessoas também seria uma maneira certa de produzir angústia, não fosse a possibilidade de ficarmos a sós, oportunamente.

O paradoxo da solidão

A escritora Lya Luft poetizou que “a solidão é um campo tão vasto que não deve ser atravessado a sós”. Pois quando li esse pensamento pela primeira vez, eu me dei conta do valor de tal campo. Tenho o hábito de me lembrar das pessoas que amo quando estou vivenciando um momento de grande prazer ou felicidade. Não consigo, por exemplo, não pensar em minha tia, e na minha a companheira de sempre, quando um pôr-do-sol se descortina inadvertidamente diante de meus olhos. Pois é o que sinto quando estou em um momento de extrema paz comigo mesmo. Está tão perfeito este momento que eu adoraria reparti-lo com quem amo.

Só então me dou conta do contrasenso da situação. Em minha solidão só caibo eu. Ou melhor, eu e meus sonhos. Aqueles dos quais fazem parte tantas outras pessoas, sem as quais a vida não teria sentido. Mas o momento de sonhar é um momento de concha, de casulo ­ um momento de estar só. Sim, pois até o sonho que se sonha junto, como queria Raul Seixas, começa com um sonho que se sonha só.
O paradoxo da solidão é que ela nos prepara para a convivência. Estar só é promover a recarga para estar junto. Sim, pois, ao conviver plenamente consigo mesmo, um homem aprende que precisa do outro para ser completo. Uma vez que somos anjos de uma asa só, e só voamos em conjunto, precisamos, antes, cuidar de nossa asa. Assim faremos nossa parte. A parte em que nos doamos por inteiro, porque inteiros estamos.

Minha opinião e só gostaria que fosse respeitada

quinta-feira, 6 de setembro de 2007



Qual a escolha?

Nunca foi tão difícil para a humanidade saber o que quer, fazer boas escolhas e ser feliz.
Por Yuri Vasconcelos (adaptação Profº. De Filosofia - Charles Messer)

Você já passou pela sensação de se sentir desorientado, perdido, sem saber o que quer da vida? Já viveu a angustiante situação de estar diante de uma escolha e não saber o que fazer? E aquele arrependimento depois de ter feito uma opção? (se é que tem alguma?!) Tomar decisões é difícil, todo mundo sabe. Mas o curioso é que nossos problemas começam muito antes do momento de decidir. Afinal, para fazer uma escolha, precisamos saber o que queremos. E a maioria de nós não sabe dizer o que deseja. Grosso modo, até sabemos que queremos ser felizes, mas não temos uma idéia muito clara de como chegar lá.

Se você tem a sensação de que o mundo está complexo demais para saber o que quer em meio a tanta informação, acertou. É isso mesmo. Atualmente há tantas opções à nossa disposição, que é como se vivêssemos de encruzilhada em encruzilhada, tendo que escolher o tempo todo entre vários caminhos: filhos ou profissão, advocacia ou gastronomia, cidade ou campo, remédio ou homeopatia, sorvete com calda ou iogurte desnatado? No lugar de facilitar as escolhas, essa diversidade de possibilidades, caminhos e modelos acaba dificultando e imobilizando as pessoas. "O momento que estamos vivendo é demasiadamente complexo e é ele que torna tão difícil saber o que queremos e o que nos satisfaz", afirma Lia Diskin, diretora da Associação Palas Athena, de São Paulo, que desenvolve programas filosóficos, culturais e socioeducativos. (Aconselho conhecer)

É claro que é bom ter opção. Sua avó ou mesmo sua mãe, querido (a), provavelmente não teve outra escolha a não ser casar, viver para a família e ter filhos. Hoje, muitas mulheres achariam essa vida um suplício, e é bom que elas tenham outras possibilidades. Mas não dá para negar que essa multiplicidade de caminhos causa ansiedade e, em algumas pessoas, provoca uma angústia paralisante.

A escolha é o grande problema da humanidade hoje, dizem os psicanalistas. "Mais do que nunca, somos obrigados a optar", afirma o psiquiatra Jorge Forbes, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana, em São Paulo, e autor do livro Você Quer o que Deseja?.

Vamos filosofar um pouco...
De quem é a vontade?

O primeiro passo para descobrirmos o que queremos é entendermos que todo ser humano carrega dentro de si um conflito de interesses, uma verdadeira guerra de desejos. De um lado desse combate estão as coisas que você quer mesmo, seus desejos verdadeiros, aqueles que, quando satisfeitos, levam a um estado de espírito conhecido por felicidade. Do outro, estão as coisas que os outros querem para você. Sim, os outros. Muitas vezes queremos e escolhemos algo não porque aquilo está de acordo com o que realmente desejamos, mas por influência de nossos amigos, parentes ou do grupo do qual fazemos parte. É muito comum, por exemplo, que os pais influenciem seus filhos na tomada de decisão com relação à vida profissional e até mesmo afetiva. Quem não conhece um jovem que escolheu ser médico ou advogado porque o pai sempre quis, ele mesmo, seguir aquela carreira? Sem falar nas inúmeras histórias de amor que minguaram porque o pretendente não foi aceito pelos pais do garoto ou garota. (Sem comentários!)
A sociedade também impõe seus quereres, tentando nos enquadrar no estilo de vida que ela (ou seu grupo mais influente) acha que é melhor. Se você parar um minuto para ouvir seu “coração” (metaforicamente é claro), talvez conclua que não quer, de verdade, ser competitivo, vitorioso, bem-sucedido, magro e sarado. No entanto, todo dia você se esfalfa no trabalho para juntar uma grana e poder comprar a roupa da moda, decorar a casa ou botar um carrão na garagem. E no tempo que sobra corre para a academia para queimar as gordurinhas. Pois é. Vivemos numa sociedade capitalista. Aqui é assim. Factum est.

Mas não pense que entre os índios cada um vive como quer. Não. Cada sociedade cria seus papéis e faz o possível para enquadrar todo mundo neles. Para os hindus, os falsos desejos, esses que nos são empurrados goela abaixo pelos pais ou pela sociedade, são véus que turvam nossa vista para os verdadeiros quereres. "A vida é feita de muitas ilusões. À medida que crescemos e nos desenvolvemos, vamos tirando os véus da ilusão.
Quanto mais véus formos capazes de tirar, mais saberemos o que realmente queremos", afirma a terapeuta junguiana Denise Gimenez Ramos (antiga Professora minha), professora do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

E por que a gente aceita que os pais, os amigos e a sociedade decidam o que queremos? Basicamente, porque precisamos ser reconhecidos e aceitos pelas pessoas que são importantes para nós, desde os pais até o chefe (da tribo ou do escritório). "Enquanto seguimos o comportamento que a sociedade espera da gente, fazemos parte do grupo. Ao escolher outro caminho, tememos ser rejeitados, abandonados e considerados diferentes", afirmo. É isso que faz com que tanta gente tenha medo de tomar uma decisão que contrarie a maioria e o padrão social.

O problema é que, quando os desejos alheios brigam com os autênticos, a gente sofre um bocado. É daí, por exemplo, que brotam boa parte das culpas, vergonhas e frustrações. "Os indivíduos que, frente ao risco da incompreensão, abdicam dos próprios desejos para se adequar ao Status Quo pagam um preço muito alto", diz o psicanalista Forbes. Para ele, um desejo reprimido hoje é a causa da úlcera de amanhã (ou de doenças mais graves, como infarto e câncer). Sem falar que culpa e frustração não ajudam nada na hora de fazer uma escolha.

Bem, mas já que vivemos no capitalismo e não na selva amazônica, vale a pena entender melhor o que andam nos empurrando por aqui. Nas pequenas comunidades, onde todo mundo sabe quem é quem e o que cada um faz e pensa, as pessoas se reconhecem e se aceitam pelo que são. Mas nas grandes cidades, onde se vive cada vez mais isolado e menos íntimo dos outros, isso é impossível. Assim, informamos ao mundo quem somos pelo que possuímos. "Já não somos nós, como pessoa, o foco de identidade, mas as coisas que exibimos: as roupas, o carro, os lugares que freqüentamos, etc. Com isso, toda a referência de reconhecimento e de encontrar nossos pares é dada pela exterioridade do sujeito". Isso explica o comportamento do sujeito que gasta o dinheiro que não tem para comprar uma roupa de grife. Quando se deixam levar por esses quereres, as pessoas perdem contato com seus desejos mais íntimos, ou seja, consigo mesmas.

Mas ninguém está dizendo que é errado ganhar dinheiro, ter um bom emprego, um carro novo e uma casa confortável. Tudo isso é saudável. "A questão primordial é não vincular nossa felicidade aos desejos materiais. Podemos ser felizes com ou sem eles. À medida que depositamos nossa felicidade nessas coisas, estamos apegados e vamos sofrer, porque elas não vão nos satisfazer e, se nos satisfizerem, será por pouco tempo".

Necessidades universais (Um pouco de ironia para apimentar a coisa) Rs!

Mas, afinal, quais são os desejos verdadeiros? Como eles nascem? De onde vêm? Bom, essas perguntas estão entre as mais antigas que a humanidade já fez. E ainda não há resposta para elas. Ou melhor, há várias, dependendo de quem responde. Há 25 séculos, o filósofo grego Platão acreditava que todo mundo era movido por uma mesma vontade universal. "Ele partia do pressuposto que todos têm um mesmo objeto em mente e esse objeto é algo que todos querem igual, muito embora nem todos ou ninguém consiga alcançá-lo. Os gregos chamavam isso de agatos, que quer dizer perfeição, excelência ou querer o bem. Ou seja, segundo Platão, todos somos motivados pela busca da perfeição". De lá para cá, essa história de perfeição perdeu muito de seu crédito, mas Platão teve o mérito de dar um pontapé inicial à discussão.
Para uma corrente da psicologia, os desejos genuínos nascem de necessidades básicas, universais. Ou seja, uma mulher que escolhe ser enfermeira no Congo pode estar querendo a mesma coisa que um jovem esquimó prestes a entrar para a equipe local de hóquei. Tem gente que chegou inclusive a enumerar e listar essas necessidades básicas, como o economista chileno Manfred Max Neef, ganhador do Prêmio Nobel na área de economia alternativa na década passada. Sem comentários.


Para ele, a humanidade tem nada mais nada menos que nove necessidades básicas: afeto, liberdade, subsistência, compreensão, participação, criação, identidade, proteção e ócio. Do ócio faço as minhas palavras!

Neef defende que essas necessidades sobrevivem à passagem do tempo e não são muito diferentes daquelas dos homens que moravam nas “cavernas” (ou ainda moram?!).
Para o economista, essas carências estão na raiz dos nossos desejos e a satisfação delas seria um grande passo para se atingir a tão sonhada felicidade. Em psicologia, teorias esquemáticas como essa geralmente são muito criticadas. “Mas serve como referência”.
Não que alguém, diante de uma escolha importante, vá listar seus desejos e tentar enquadrá-los nas categorias de Neef para saber quais as vontades genuínas e decidir com base nelas. Mas que ajuda a pensar, ajuda.

Para complicar um pouco mais, uma corrente de filósofos acrescentou um dado interessante a essa teoria. OK, as necessidades podem ser as mesmas, mas nem todo mundo quer a mesma coisa (o que é bom, imagine um vestibular em que todo mundo escolhesse o mesmo curso, um bando de loucos como “Eu” nas escolas publicas de S. Paulo, questionando tudo e todos). O que acontece, segundo essa teoria, é que cada um manifesta um desejo diferente porque tem histórias e valores diferentes. Um “sujeito muito religioso” (Risos) dificilmente vai passar a mão numa arma e roubar uma padaria para dar de comer aos filhos. Mas, como sabemos, muita gente não vê problema em fazer isso, porque a honestidade e o respeito às leis não estão entre seus valores mais importantes.

O desejo verdadeiro

Seja qual for a origem dos desejos autênticos, o caminho para conhecê-los é um só: autoconhecimento. Afinal, se não nos conhecermos, como podemos saber o que é mais importante para nós mesmos? Como um bom pensador, vou dar uma explicação holística e poética para descobrirmos o que queremos. "O verdadeiro querer", "está associado às realizações pessoais, à expansão do próprio ser e ao desenvolvimento de todo nosso potencial. É isso que leva à felicidade. Ela, a felicidade, não está nos quereres ilusórios, condicionados ou artificiais, mas no contato consigo mesmo. É nesse contato que descobrimos o que nos torna feliz." Bonito, né?
O processo de autoconhecimento não tem fim. Começa ao nascer e termina com a morte. "Aquilo que está dentro de nós, que deseja algo para nós, está sempre em transformação. Se ouvirmos nossa voz interior, vamos seguir o caminho do centro, da totalidade, da criatividade, do fazer pela humanidade". Mas, atenção: não há regras nem receitas mágicas para se conhecer e identificar as próprias vontades. É um processo contínuo e custoso, que exige muita determinação, perseverança e principalmente muita coragem.

Uma dica dada pelos especialistas para conseguirmos saber o que realmente desejamos é, primeiro, conhecer aquilo que não queremos. "Limitar o espectro de escolhas é um recurso muito válido quando se tem um amplo repertório de oportunidades pela frente". E isso nós fazemos naturalmente quando, por exemplo, vamos comprar uma roupa. Descartamos cores, tecidos, padronagens e modelos que não nos agradam e nos concentramos naqueles que satisfazem o nosso gosto estético. A mesma atitude pode ser adotada quando nos encontramos diante de outras escolhas, como a profissão a ser seguida, uma proposta de trabalho ou o destino de uma viagem de férias.

Às vezes, só dá para saber o que se quer experimentando, mesmo. Quem nunca ficou frustrado depois de conseguir aquilo que queria tanto? Isso é tão comum que já se tornou um clássico: o sujeito corteja a garota (o), faz de tudo para conquistá-la (o), mas perde completamente o interesse depois que consegue sair com ela (o). Sem dúvida, experimentar é a melhor maneira de escolher, mas nem todas as decisões na vida podem ser testadas antes. Não há outra forma de saber como é ser mãe, senão tendo um filho, para o resto da vida.

Mas é possível treinar a capacidade de escolha com pequenas opções que nos permitem arrepender-nos. Atentos ao que sentimos antes, durante e depois de cada escolha, afiamos o ouvido para o que diz o “coração”. E quando a decisão da vida aparecer, será muito mais fácil ouvi-lo e escolher.

A decisão final

Ok, ok. Identificamos os desejos que não eram nossos, tiramos os véus que nos impediam de ver os próprios desejos, descartamos o que não queremos e, finalmente, descobrimos o que queremos. A felicidade está garantida? Ainda não. Contraditoriamente, saber o que se quer não é suficiente para que alguém viva de acordo com os próprios desejos. E o culpado disso é o medo, o medo de abrir mão das opções. Enquanto não escolhemos, todas as opções ficam à disposição. Por outro lado, não podemos usufruir nenhuma delas. Fazer o que né?.
É um fato da vida: toda decisão implica perdas. Afinal, escolher uma coisa significa abrir mão das outras, pelo menos naquele instante. "E a escolha nos angustia porque temos receio de escolher errado e perder a oportunidade de escolher bem".
"O estresse nada mais é do que a conseqüência do medo de decidir."


Referencias para leitura:

Liberdade: Igualdade de direitos, respeitar e ser respeitado

Subsistência: Ter onde morar, o que comer e um trabalho digno

Compreensão: Nada mais que compreender e ser compreendido

Participação: Precisamos de solidariedade, entrega e disposição

Criação: É fazer o que dá prazer, desenvolver habilidades e talentos

Identidade: Saber quem você é e ser reconhecido por isso

Proteção: Não se sentir ameaçado

Ócio: Ter tempo livre para fazer o que quer

Para saber mais

Você Quer o que Deseja?, Jorge Forbes, Best Seller

O Desejo, Adauto Novaes, Cia das Letras

A Arte da Felicidade - Um Manual para a Vida, Dalai Lama, Martins Fontes

Psicanálise, Estética e a Ética do Desejo, Maria Inês Franca, Perspectiva

sábado, 1 de setembro de 2007



NORMOSE

Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal.

Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Quem não se "normaliza" acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.

A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?

Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha "presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for Todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo.

A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?

Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original.

Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.

É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Já levava muito a serio isto em minha vida. depois de ler isto!! Sem comentários.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Transferência de culpa



Tema: Transferência de culpa

Pergunta: “Por que algumas pessoas insistem em colocar a culpa dos problemas que acontecem em suas vidas nos outros, em vez de assumir a responsabilidade?”

No começo do século 17, os habitantes da região italiana da Toscana já estavam se acostumando com as esquisitices de um sujeito chamado Galileu Galilei. Ele era bamba em matemática e física e andava obcecado por entender os mistérios do Universo. Uma passagem curiosa a seu respeito é aquela em que ele subia a torre inclinada de sua cidade natal, Pisa, e ficava jogando coisas de tamanhos e formas diferentes, tentando entender por que e como caíam. Diz a lenda que, após uma dessas experiências, Galileu observava pensativo os restos de um ovo estatelado na calçada da praça dos Milagres quando foi interpelado por uma velhinha que lhe perguntou o que estava fazendo. “Estou tentando entender por que este ovo caiu da torre”, disse ele. “Eu sei por que ele caiu”, emendou a mulher. “Porque você o soltou!”

Essa história engraçada coloca juntas as duas causas que costumam desencadear os fatos da natureza e também da vida humana: a causa que determina e a causa que predispõe. O que determinou a queda do ovo foi a ação da gravidade; o que permitiu que isso acontecesse foi o fato de Galileu ter aberto a mão e soltado o ovo. Da mesma maneira, sempre há uma causa externa e uma causa interna para os fenômenos que acompanham a vida humana. O correto é dar crédito merecido a ambos os fatores, mas nós temos uma imensa tendência a valorizar um e minimizar o outro, de acordo com nossas conveniências. Nossas conquistas nos costumaram atribuir às nossas virtudes; já nossos fracassos não têm nada a ver com nossos defeitos, e sim com fatos alheios a nós, verdadeiras traições do destino.

Na semana em que escrevia sobre este assunto, pude observar pelo menos três fatos que ilustram bem essa tendência de autopreservação: um querido amigo chegou com uma hora de atraso a um compromisso que tinha comigo e, após cumprimentar-me, passou a culpar o trânsito por seu atraso, e não sua já conhecida e folclórica despreocupação com os horários e com o tempo dos demais. Li no jornal que outro, investidor da Bolsa de Valores, perdeu dinheiro com a dança dos números e imediatamente atribuiu o prejuizo à “mão invisível do mercado” e não a sua análise incorreta das tendências. Nesses acontecimentos, eu fui o espectador, mas há pelo menos um em que fui o grande protagonista.

Você é meu inferno...

Cada pessoa tem seus próprios planos na vida. Para realizá-los, vai executando ações que modificam o mundo a seu favor. Até aí, tudo bem. O problema é que todos fazem isso e, claro, sempre haverá a possibilidade de que aquilo que alguém faça para atingir seus objetivos entre em conflito com o projeto de outra pessoa. É por isso que o filósofo Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Mesmo levando em consideração o mau humor do existencialista francês, temos que aceitar que ele tinha lá alguma razão, mas também não podemos deixar de atribuir a esse pensamento uma carga de transferência de responsabilidade. Às vezes as pessoas criam seus infernos particulares e atribuem a autoria a outrem.

Todos já vivemos situações em que foram as atitudes de alguém ­ a namorada (o), o chefe ou o presidente da República ­ que acenderam o fogo da panela de pressão de nossa paciência. Ok, concordo! Mas muitas vezes fomos nós mesmos que riscamos o fósforo, e os outros apenas entraram com a palha seca. Ou vice-versa.

Ninguém está livre de ter esse comportamento transferidor de responsabilidade. O problema é que ele pode se transformar em um padrão. Quem jamais, ou quase nunca, admite ter construído seus insucessos, carrega consigo os sentimentos de frustração, de impotência e de injustiça. Frustração porque vê seus planos falharem. Impotência porque, como não se atribui a culpa, sente-se incapaz de agir sobre seu próprio destino. Injustiça porque não se considera merecedor do infortúnio, uma vez que, em sua opinião, não é ele o autor do mesmo.

A psicologia, que está sempre buscando explicar o comportamento humano, cunhou a expressão “projeção” para explicar essa tendência de transferir responsabilidades que todos temos, em graus variados. E colocou a projeção em um grupo de comportamentos chamados “mecanismos de defesa”. A parte da estrutura psicológica chamada ego muitas vezes recusa-se a reconhecer impulsos de seu vizinho, o id. Essa é a parte da mente humana mais primitiva, regida pelo impulso do prazer, e que busca a satisfação imediata das necessidades e o apaziguamento das tensões. Obedecendo a esses impulsos primitivos, muitas vezes fazemos coisas, ou deixamos de fazer, que nossa própria moral reprovaria. É quando entra o ego, que é regido pelo princípio da realidade.

Quando adultos, não podemos mais simplesmente cair no choro e sapatear quando somos contrariados ou repreendidos. As crianças fazem isso porque são comandadas pelo id (instintos). Nos adultos, o ego (razão) assume o comando e a responsabilidade. Entretanto, às vezes o golpe é muito forte para um ego ainda não totalmente estruturado. Nesse caso, ele projeta a culpa para fora de si, isentando-se e, claro, incriminando alguém. Freud explicou!




Inocente ou impotente?

Dizem que essa tendência de transferir responsabilidades é maior entre nós, “latinos.”
Um amigo que prefiro preserva seu nome desta reflexão, tem um filho de 5 anos, sempre saímos juntos para jantares em família, me considero um ser que adora observar, desta forma relato um fato ocorrido em um destes jantares. Estávamos ainda no carro quando surge um diálogo bizarro, mas pra lá de esclarecedor:

- Pai, sabe aquele carrinho que você me deu?
- Sim!... Porque filho, o que tem ele?!
- Pois é, pai. Ele quebrou.
- Como assim?! Ele se quebrou sozinho?!
- Sim, disse a criança.
- Eu que não poderia deixar passar a situação perguntei! - Então ele cometeu suicídio?
- Foi, Charles. Eu vi!

Pense em quantas vezes você mesmo, como o pequeno protagonista desta história, transferiu a responsabilidade até para objetos inanimados. Eu, pessoalmente, tenho vários episódios em minha vida, confesso. Quando morava com alguns parentes, fiz algumas coisas que não poderia fazer, com a idade que tinha. Quando descoberto. Fui obrigado a responder com responsabilidade pelos atos cometidos.

Durante muito tempo eu me envergonhei do acontecido. Hoje o encaro como um imenso aprendizado. Naquele momento eu me achava inocente. Na verdade eu estava impotente. Aliás, esse é o preço da inocência ­ a impotência. Se você deseja ter sua vida sob controle, o preço é outro ­ a responsabilidade.

Transferir a responsabilidade aos outros traz um falso conforto momentâneo. Uma análise mais cuidadosa de qualquer acontecimento negativo em nossa vida sempre vai salientar nossa participação ativa no episódio. Muito mais do que gostaríamos de admitir.
Seu namorado (a) a deixou porque ele é um crápula ou porque você não investiu na relação nem em você mesma? O emprego não aparece porque o mercado de trabalho está ruim ou porque seu currículo não ajuda? Você não passou no vestibular porque a concorrência era muito grande ou porque você não estudou o suficiente?

É claro que sempre há, lembre-se, os fatores determinantes e os predisponentes a qualquer acontecimento. Pode ser que um fator determinante esteja fora de você, mas que você ajudou com um ou mais fatores predisponentes, isso lá você ajudou. Confesse! É verdade que o mercado está ruim, mas também é verdade que seu currículo não está ajudando. É real que o vestibular é difícil e concorrido, mas é ainda mais real que você não se preparou o suficiente. Todos sabem que os rapazes são inconstantes, mas todos sabem também que ele não foi estimulado a permanecer na relação com você, pela maneira como você se cuida e pela maneira como você o tratava. Só que ninguém diz nada.

Confessando as culpas...

Em Québec, no Canadá, o jovem Otto cometeu um assassinato. Escondeu de todos, mas confessou o crime ao padre Michael Logan. Este guarda o segredo. Só que o inspetor Larrue, no decorrer das investigações, encontra indícios que incriminam o próprio padre, que é preso e encaminhado a julgamento.

Esse é o enredo de I Confess, um dos filmes menos conhecidos de Alfred Hitchcock. Bem ao gosto do velho cineasta, o filme mistura suspense com drama psicológico. Durante uma entrevista, em 1954, Hitchcock dizia que não havia gostado do resultado do filme, quando então foi interrompido pelo crítico André Bazin, que lhe disse ter percebido no filme essa forte característica humana de transferir a culpa para evitar a dor. O cineasta então se desconcertou e se surpreendeu com essa marca psicológica que ele mesmo não havia percebido em sua obra, a ponto de passar a usá-la outras vezes, como nos filmes Cortina Rasgada e Janela Indiscreta, outras de suas produções geniais.

No fim do filme, Otto confessa seu crime. É o que acontece com todos nós que, mais cedo ou mais tarde, acabamos confessando nossas culpas, culpinhas ou culponas. E não as confessamos, necessariamente, para os outros, e sim para nós mesmos, que é o que mais interessa ao nosso crescimento pessoal.

Pode comentar se quiser...



Charles Rogers – Filósofo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Georg Flegel ilustra muito bem a beleza da mãe terra e seus tesouros. As moedas e os escudos exóticos ao lado do vaso são os tesouros da terra.A caveira no vaso enfatiza que as flores, embora bonitas, se desvanecem e morrem. Os feijões no primeiro plano podiam ter diversos significados. Podiam ser feijões selvagens, que, por serem extremamente venenosos quando não cozinhados corretamente e são assim um lembrete da morte. Mas pelo fato de causar uma séria indigestão poderiam também ser um alusão a uma segunda vida ou vida depois da morte.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Perguntas e respostas sobre o assunto: Filho de pai Judeu




Filho de pai judeu.

Status perante o judaísmo.

Sou filho de mãe não judia. Meu pai é judeu. Gostaria de saber seposso considerar-me judeu. Meu judaísmo é muito mais sincero e atuante que o de muitos "judeus naturais" que conheço. O fato de me sentir e praticar o judaísmo do fundo da minha alma não representa nada?

Gostaria também de saber como uma conversão ortodoxa deve ser feita. Como isso ocorre no Brasil. Que diferença vai fazer, na prática, se eu me manter na situação atual, não me converter e continuar praticando meu judaísmo?

RESPOSTA:

Claro que sentir e praticar o judaísmo do fundo de sua alma representa muito! Significa que se você está disposto a abraçar o judaísmo como seu verdadeiro e único guia de vida, certamente está disposto a lutar para oficializá-lo, ou "legalizá-lo", para mante-lo de forma que seja aceito e reconhecido por todos, em qualquer lugar do mundo, mas principalmente por D'us, que nos deu a Torá e estabeleceu que para ser judeu, deve-se nascer de ventre judeu.

Infelizmente este é o preço que muitos filhos ainda pagam pelo casamento misto de seus pais: o de ter que optar a certa altura de suas vidas e ter que enfrentar o fato de ser necessário uma conversão para tornar-se judeu.

Mas se você é convicto em D'us, na Torá Divina e em suas diretrizes a resposta se encontra na mesma fonte: para tornar-se judeu é necessário praticar as 613 mitsvot (Shabat, Cashrut, tefilin, etc).

A conversão deve ser realizada sob a orientação de um rabino ortodoxo para que tenha validade e siga as orientações de nossos sábios, conforme estabelecido pela Torá.
Conversões foram proibidas de ser realizadas no Brasil há vários anos pelo Supremo Tribunal Rabínico de Israel, justamente por constatarem que a maioria era realizada sem critério algum, e muitas, por interesses alheios à prática sincera do judaísmo. Mas a conversão pode ser realizada em países da Europa, em Israel e Estados Unidos.

Uma pessoa deve tornar-se judia através da conversão para que seja considerada como tal, pois através deste procedimento se tornará apta a receber uma neshamá, uma alma judia. Isto só se torna possível através de uma conversão válida, após passar por diversas etapas que a preparam para a conversão, entre as quais o estudo e prática da Torá, sob a orientação de um rabino competente.

Caso deseje manter-se do modo como está, isto é, acreditando que não necessita de uma conversão e apenas basta "sentir-se" judeu, deverá estar ciente que estará sujeito a enfrentar situações constrangedoras e embaraçosas no futuro, tanto na hora de casar, como também para os futuros filhos.
Será que este filho deseja fazer com que seus futuros filhos passem por situações embaraçosas? As mesmas que teve que enfrentar?

Esperamos ter lhe ajudado, e embora não seja uma tarefa fácil, se você ama o judaísmo deve estar disposto a transpor todas as barreiras e vencer todos os obstáculos para chegar lá: tornar-se judeu de corpo e alma.

Torá tsivá lanu Moshé morashá kehilat Yaacov. (Deuteronômio 23:4)




Torá tsivá lanu Moshé morashá kehilat Yaacov. (Deuteronômio 23:4)


A Torá que Moisés nos ordenou é uma herança para a congregação de Jacob. Cada judeu tem direito à Torá. Não importa que seja rico, pobre, alto, baixo, gordo ou magro. Até mesmo aquele judeuque nem sabe direito o alef bet precisa da Torá e pode cumprir as mitsvót de um jeito muito legal.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Eis o motivo da Frase: ECCE HOMO (Eis o Homem).

Dizem que sou Austero. Prefiro me chamar Estóico.

"Estóico quer dizer: um homem que na enfermidade se encontra feliz que no perigo se considera venturoso que desprezado e caluniado se acha satisfeito. Mostra-me então um que esteja no caminho de o ser. Mostra-me um homem conformado com a vontade divina, que jamais se queixa dos “deuses”, nem dos homens, que nunca veja frustrados os seus desejos, que nada se lastime, a quem a cólera não assalte, nem a inveja, nem a soberba; com um corpo mortal, ou a alma imortal, sustenta um contato secreto com D’us e anele despojar-se de uma vestimenta mortal para unir-se a Ele em Espírito”.

Sou aquele que no dia 17 de outubro de 1974 ás 17:00h. Nasci chorando, cresci, me machuquei, peguei catapora, aprendi o que era certo e o que era errado ainda criança, mesmo sem ter o direito de errar como uma criança. Soube fazer escolhas certas, mas muitas vezes erradas.
Descobri que nem todo mundo queria o meu bem, mas soube perceber quem queria fazer apenas o bem.
Aprendi que o luxo é bem melhor que o lixo, e que não é necessário carregar resíduos para o resto da vida.
Percebi que nem tudo é para sempre e que aproveitar o hoje é bem melhor do que sofrer o amanhã. Contaram-me que príncipe encantado, país das maravilhas e fadas não existem, e que sonhos se realizam sim, basta acreditar e lutar muito por eles. Depois de certa maturidade, vi que poderia ser mais eu, então comecei a manifestar mais carinho aos que se faziam presentes em certos momentos da minha vida. Sofri, chorei, cantei e cá estou hoje, tentando rir das cousas que passei... Aprendi que em vez de dar um beijo na face de alguém, devemos beijar-lhe a alma, pois a mesma não tem sexo, e não poderei ser taxado de homossexual, aprendi também que antes de me fazer feliz, tinha que fazer outros felizes, pois os mesmos já haviam me feito muito feliz.
Enfim, o que realmente importa hoje para mim, se resume nesta frase bem ai em baixo.

Um beijo na alma e seja feliz

  Crônica de um corpo que pede pausa. Hoje me peguei pensando no que se passou na semana passada. E nesta semana? Também pensei. Semana pas...